MUNDO DO CAVALO

 

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  Histórico
A lenda do Pony Express
Enduro Eqüestre – a doma é tudo
Marchador no enduro
Terminar é vencer
Programa básico de treinamento
Aspectos incomuns do treinamento de enduro eqüestre
Treinamento de resistência e limiares metabólicos        
Desidratação após esforço
Regulamento internacional de endurance

 

Histórico

Indice

Aline Dourado e Júnior – I Desafio Equestre


A palavra enduro é uma abreviação de endurance (resistência, no idioma inglês).
O enduro eqüestre é uma modalidade esportiva originária do turismo eqüestre, onde cavalo e cavaleiro devem percorrer uma trilha com obstáculos naturais, em um tempo pré-determinado ou em velocidade livre. Vence a prova o conjunto que chegar ao final no menor espaço de tempo, ou no tempo mais próximo do ideal, dependendo do tipo de regulamento utilizado. É praticado em quase todos os países da Europa, na Oceania, América do Sul, nos Estados Unidos, África e Oriente Médio.

O enduro eqüestre civil, praticado atualmente, foi criado por Wendell Robie, nos Estados Unidos, em l955, através da Tevis Cup, a mais famosa prova do mundo. A intenção era simular as viagens do Pony Express (correio a cavalo americano) e o objetivo de cumprir 100 milhas em 24 horas, em um único cavalo. Existem também competições de até 300 km, realizadas em vários dias.
Esta modalidade assemelha-se ao raid de cavalaria, tática de guerra universalmente empregada pelas cavalarias hipomóveis. Trata-se de uma incursão rápida e surpreendente ao território inimigo, com um grande contingente de tropa, que retorna imediatamente após o ataque. Atualmente, raid e enduro são considerados sinônimos. Existem raids de até 750 km, que são disputados durante 15 dias.
Nos anos 60, o enduro eqüestre começou a ser praticado na Austrália, tornando-se um esporte muito popular. Atualmente, este país também é um importante centro de pesquisas na área da fisiologia desportiva eqüina. Inúmeros trabalhos de acompanhamento de competições de enduro são publicados periodicamente.
Em 1975, na França, foi idealizada a competição de FLORAC - A Tevis Cup Francesa - que é considerada o mais belo e difícil desafio a cavalo em um evento de um dia.
No Brasil a primeira prova de enduro eqüestre aconteceu em Tremembé, interior de São Paulo, em 8 de outubro de 1989, ocasião em que 25 conjuntos largaram para cumprir um percurso de 60 km com velocidade controlada de 12 km/h. Em 1994, uma competição em Campinas/SP, reuniu 522 conjuntos em um evento que foi registrado no livro Guiness de recordes, como a maior competição eqüestre de uma mesma modalidade.
Atualmente, o enduro eqüestre é regulamentado por rigorosas normas da FEI - Federação Eqüestre Internacional, com o propósito de preservar a integridade física do animal, que é controlada sistematicamente em postos veterinários denominados Vet-cheks, instalados ao longo do percurso. Nas competições internacionais oficiais, o percurso é de 160 km, dividido em quatro etapas de aproximadamente 40 km que devem ser cumpridas em velocidade livre.
Nos Vet-cheks vários pontos são avaliados, tais como: índice de recuperação cardíaca, grau de desidratação, claudicações, entre outros. Após o final de cada etapa, o competidor só recebe a autorização de re-largada se todos estes pontos estiverem dentro da faixa de normalidade fixada pelo regulamento. Mesmo após o término da competição, que é realizada em velocidade livre, o exame veterinário é realizado para a confirmação do resultado. O tempo limite para este exame é de 30 minutos após a chegada, e a freqüência cardíaca não pode superar o limite de 64 bpm.
O I World Eqüestrian Games, que reuniu seis disciplinas diferentes - Adestramento, CCE, Volteio, Salto, Atelagem e Enduro - oficializadas pela FEI, foi realizado em 1990, em Estocolmo, Suécia,. Sagrou-se campeã a equipe inglesa e a competição individual foi vencida por uma amazona americana (Becky Hart) montando um cavalo de 15 anos, que cumpriu o percurso (160 km) em 10 horas e 33 minutos, média horária superior a 15 km/h. Este campeonato é realizado de quatro em quatro anos.
O enduro é um esporte eqüestre fácil de ser praticado, pois não exige em suas categorias inferiores qualificação técnica do cavalo nem do cavaleiro, podendo participar cavalos de todas as raças, puros ou mestiços, desde que tenham no mínimo quatro anos de idade. Não há limite de idade para o cavaleiro, o que torna o enduro um esporte familiar.
O Brasil já participa de competições internacionais desde 1994, quando foi representado por quatro conjuntos (cavalo-cavaleiro) na Holanda, por ocasião dos II WEGs. Bianualmente também é realizado o Campeonato Mundial de Enduro Eqüestre, da FEI. Equipes brasileiras freqüentemente participam deste campeonato. Em dezembro de 1998, a equipe brasileira, formada por seis conjuntos, obteve a sexta colocação nos III WEGs, em Dubai nos Emirados Árabes Unidos.
Em 1990, foi realizado o I Raid de Enduro Eqüestre, em Itatiba, interior de São Paulo. Esta prova também marcou a adoção de critérios e regulamentos internacionais - ainda não utilizados até aquela ocasião - nas provas nacionais.
A mais importante associação de enduristas do mundo é a ELDRIC - European Long Distance Rides Conference - que congrega associações nacionais de países de todo o mundo e organiza quadrianualmente o seu campeonato mundial, bem como o campeonato europeu da modalidade. Os melhores enduristas do mundo na atualidade são os americanos e os franceses. Atualmente, a ELDRIC pleiteia junto ao COI - Comitê Olímpico Internacional -, a inclusão do enduro nas Olimpíadas.
Todos os esporte hípicos são organizados por federações estaduais, que são subordinadas às confederações nacionais (CBH – Confederação Brasileira de Hipismo, no Brasil). A entidade máxima que, dentre outras atribuições, fiscaliza as confederações (ou federações nacionais) é a FEI.
No Brasil o regulamento de regularidade é semelhante ao regulamento francês, que prevê qualificações sucessivas em provas com trilha sinalizada e com velocidade controlada. As distâncias elevam-se gradualmente em função das qualificações, até atingir distâncias maiores que são corridas à velocidade livre. A CBH promove anualmente o Campeonato Brasileiro da modalidade.
Existe no Brasil uma associação de enduristas, a Liga Nacional de Cavaleiros de Enduro Eqüestre, que organiza anualmente um campeonato brasileiro e o Campeonato Paulista.
O Brasil tem uma natural vocação para o enduro eqüestre, pois a enorme extensão territorial brasileira foi consolidada sobre dorso de cavalos. O País possui, pois, uma tradição eqüestre um pouco esquecida, um excelente criatório e abundância de trilhas naturais (na Europa praticamente todas as trilhas para competição e treinamento possuem trechos de asfalto), que nos proporciona condições ideais para a prática deste esporte, reservando-nos um futuro promissor, segundo os próprios dirigentes internacionais que nos visitam periodicamente.
 
Mais Informações
O enduro eqüestre, como categoria esportiva para competições internacionais, foi reconhecido pela FEI – Federação Eqüestre Internacional, em 1985, sendo realizado em 1986, em Pratoni del Vivaro, Itália, o primeiro Campeonato Mundial. Desde então, alcançou um desenvolvimento fulgurante dentro do esporte eqüestre internacional tanto que o número de participantes e provas triplicou nos últimos cinco anos.
Considerado um verdadeiro teste de conhecimento e entrosamento entre cavaleiro e animal, o enduro tem como premissa básica a saúde e as boas condições físicas do cavalo, fator determinante e prioritário da participação em competições. O cavaleiro/amazona cujo animal completa a prova com as melhores condições físicas sai vitorioso,pois são 160 km de percurso árduo.
O lema dos competidores do enduro eqüestre em todo o mundo é: Terminar a prova é vencer!
Na abertura oficial do Mundial de Enduro Eqüestre de Compiègne, França, o esporte teve o reconhecimento como disciplina olímpica pelo secretário geral da Federação Eqüestre Internacional(FEI), Michael Stone, por atender a todos os quesitos necessários para se transformar em esporte olímpico. O número de competidores deste mundial supera o número de participantes em todas as provas eqüestres das Olimpíadas de Sidney.
O enduro eqüestre, como esporte olímpico, será pauta novamente da agenda do próximo encontro do Comitê Olímpico Internacional, depois das Olimpíadas de Sidney. Mais de 40.000 cavaleiros, em 61 países, praticam e participam de provas, o que dá uma idéia do crescimento e da popularidade do esporte.
Sem limite de idade, o esporte pode ser praticado por pessoas de todas as idades, homens e mulheres, individual ou em equipe. O importante é o conhecimento e a relação homem/animal/natureza.
Atualmente, assistimos um crescimento de adeptos do esporte no Brasil nas várias categorias. Há provas livres de 30 e 160 km, disputadas em condições de igualdade por todos. Um esporte que pertence às mulheres – Desde sua primeira edição, em 1986, os Campeonatos Mundiais de Enduro Eqüestre, categoria individual, foram conquistados por mulheres, notadamente as norteamericanas:
1986 –  Pratoni del Vicaro, Italia
Cassandra Schuler, com Shiko’s Omar (EUA)
1988 – Front Royal, Virginia, EUA
Becky Hart, com RO Grand Sultan (EUA)
1990 -  Estocolmo, Suécia
Becky Hart, com RO Grand Sultan (EUA)
1992 – Barcelona, Espanha
Becky Hart, com RO Grand Sultan (EUA)
1994 – Den Haag, Holanda
Valérie Kanavy, com Pieraz (Cash) (EUA)
Neste mundial, a brasileira Lica Leão conquistou o 4º lugar
1996 – Fort Riley, Kansas (EUA)
Danielle Kanavy, com Pieraz (Cash) (EUA)
1998 – Dubai, Emirados Árabes
Valérie Kanavy, com High Winds Jedi (EUA)
2000 – Compiègne, França
Maya Killa Perringérard, com Varoussa (França)
2002 – Jerez de la Frontera, Espanha
Sheikh Ahmed Bin Mohamed Al Maktoum, com Bowman (Emirados Árabes Unidos)

 

A LENDA DO PONY EXPRESS

Indice

Um ágil meio de comunicação
que durou pouco mais de 18 meses

Pony Express, o Expresso do Oeste


A imagem guardada até hoje dos mensageiros do Pony Express é a de cavaleiros velozes, corpo reclinado sobre o cavalo, a aba do chapéu levantada em direção ao vento e a rédea solta, desaparecendo no horizonte com a mesma rapidez com que surgiram, trazendo notícias, enfrentando perigos e arriscando a vida a todo momento.
Para fazer o percurso de Nova York ou Boston para chegar a San Francisco, na Califórnia, uma encomenda ou correspondência precisava de seis semanas se o meio de transporte utilizado fosse o navio. Se o meio escolhido fosse uma diligência de Butterfield, via El Paso (Texas), Novo México e Arizona, o tempo baixava para três semanas, mas ainda assim um tempo demasiado longo para ligar o leste ao oeste americano.
Em 1860 viviam na Califórnia quase meio milhão de americanos e eles ansiavam por um serviço postal que fosse mais ágil que os usuais navios e diligências. Foi então que o gênio criativo e empreendedor de William Hepburn Russell idealizou um serviço que viria atender plenamente essa necessidade. Viajou a Washington com a idéia fervilhando e lá obteve apoio do senador William Gwin, da própria Califórnia, o qual prometeu financiamentos para o projeto, então alcançados com o empenho do então ministro da Guerra, John Floyd, que concedeu a Russell créditos bancários.
Ainda em janeiro de 1860, o que era apenas uma idéia virou um projeto sério e em menos de dois meses foram comprados mais de 400 cavalos de raça, montados mais de 157 postos de correio, distantes de 8 a 40 quilômetros um do outro, recrutados os mensageiros e todos os encarregados dos postos. Aliás, o anúncio de recrutamento de mensageiro falava abertamente quanto aos riscos da função: "Procuram-se jovens magros e resistentes, de, no máximo, 18 anos. Devem montar bem e estar dispostos a arriscar a vida todos os dias. Preferência para órfãos".
Os mensageiros utilizavam camisa vermelha, calças azuis e botas e juravam não blasfemar, não beber, não jogar, não maltratar os cavalos, nem violar os direitos dos cidadãos e dos índios. Além disso, cada um recebia um exemplar da Bíblia, cujo objetivo era defender-se da imoralidade. Recebiam também um par de pistolas Colt e um fuzil, com objetivo de defender-se de índios hostis e bandidos de estrada. Entretanto, como os fuzis eram de difícil manejo e atrapalhavam os velozes pôneis, acabaram caindo em desuso.
Para ter-se uma idéia clara dos perigos enfrentados pelos mensageiros, sugerimos ler a história "Pony Express" (iniciada em TCX-111 ou TXH-042), escrita por G.L. Bonelli e desenhada por V. Muzzi, aventura em que o jovem Kit Willer inscreve-se no serviço e torna-se um dos cavaleiros da Companhia que durou um pouco mais de 18 meses.
O percurso base estava claro: ligar o Missouri à Califórnia, ultrapassando o Kansas, Wyoming, um trecho do Colorado, Nebraska, Utah e Nevada. O objetivo mais claro ainda: vencer esse percurso no menor tempo possível. Em abril de 1860, às cinco da tarde, iniciou a perigosa aventura dos pony express, partindo de algum ponto entre o Missouri e o Kansas rumo à Califórnia. Na primeira corrida do foram utilizados 75 cavalos. Levava-se dez dias para percorrer os 3.050 quilômetros do percurso com 157 paradas rápidas em postos do correio. Isso, naturalmente, se índios, bandidos, tempestades e outros acidentes de percurso não atrapalhassem o mensageiro.
A correspondência vinha dentro de uma bolsa de pele - uma mochila mexicana - com quatro sacos diferentes. "Um furo no meio a prendia no botão do arção da sela, fazendo com que o mensageiro ficasse sempre com um bolso atrás e outro na frente de cada perna. Na troca de cavalos, em poucos segundos, transpunha-se a bolsa de uma sela para outra. Três das quatro mochilas ficavam fechadas e, apenas em cinco ou seis estações do percurso, eram abertas para acrescentar ou tirar cartas. No quarto bolso, ficava a correspondência local que podia ser aberta por qualquer chefe de estação" (GAITA, Renato).
As idas e vindas da Califórnia aconteciam uma vez por semana no início, depois, duas vezes. Porém, quando a notícia da regularidade e rapidez do serviço se espalhou, o volume das cartas aumentou significativamente. Agora os habitantes da Califórnia estavam integrados à nação: as notícias do Leste alcançavam Sacramento em dez dias, de onde seguiam para San Francisco num barco a vapor, lá chegando sete horas depois.
Contudo, esse correio postal rápido estava com os dias contados. Meses depois de começar a funcionar na prática a idéia do empreendedor Russell, um grande número de operários começou as obras da primeira linha telegráfica transcontinental. Mesmo o mensageiro mais corajoso e veloz, mesmo o cavalo mais resistente, mesmo as condições do tempo e do percurso ajudando, nada podia deter esse meio de comunicação que surgia com um poder avassalador de encurtar distâncias. Quando os postes já estavam plantados e a linha concluída, podia-se enviar em poucos instantes uma mensagem do Leste ao Oeste do País e vice-versa, um trecho que os mensageiros do Pony Express levariam dias para cobrir.
Para azar da idéia de Russell, quarenta e oito horas depois da primeira transmissão telegráfica que uniu o leste ao oeste e pouco mais de dezoito meses depois que mensageiros jovens e ágeis começaram a cortar as paisagens do oeste, os jornais anunciavam: "Hoje terminam as operações da Pony Express".
Renato Gaita, citado no artigo acima, escreveu uma matéria ampla e esclarecedora na revista TXAF-001, Tex, Almanaque do Faroeste, editada em agosto de 1996, revista que trouxe a história "O Matador de Índios", com texto de Claudio Nizzi e arte de Andrea Venturi.

 

 

O Pony Express

O Pony Express foi fundado em 3 de Abril de 1860, para o transporte diário de correio entre St. Joseph no Missouri, e Sacramento na Califórnia e ganhar fama para a rota escolhida, de forma ao Governo Americano atribuir o contrato de correio, no valor de 1 milhão de dólares à Central Overland California and Pikes Peak Express Company.
Realizado sem interrupção, através de uma estafeta realizada por cavaleiros que revezando-se, cobriam por etapas distância entre as referidas localidades. Era um serviço extremamente perigoso pelo que como dizia o anúncio para o serviço: "Preferem-se para este serviço Órfãos". Os cavaleiros ao serviço deveriam ser jovens, tendo o mais jovem seleccionado 11 anos e o mais velho 43. Tinham de ser leves e magros também, pesando o mais corpulento dos escolhidos apenas 39,3 quilos.
Considerando-se que um xerife geralmente ganhava cerca de 40 dólares por mês, o pagamento no Pony Express era elevado para a época, 100 dólares por mês.
Cada cavaleiro percorria entre 75 a 100 milhas (120 a 160 quilómetros) no seu percurso e trocavam de montada a cada 10 a 15 milhas (16 a 24 quilómetros). Os cavalos corriam a uma velocidade média de 16 Km/hora.
Foram comprados 400 cavalos e criadas 165 estações de muda. O total do percurso somava 3200 quilómetros entre St. Joseph, Missouri a Sacramento, Califórnia. Através dos Estados actuais do Kansas, Nebraska, canto nordeste do Colorado, Wyoming, Utah, Nevada, e Califórnia.
No início do serviço havia partidas uma vez por semana, tendo a partir de meio de Junho de 1961 passado a haver 2 partidas por semana. As mesmas eram feitas em ambos sentidos. O transporte mais rápido levou 7 dias e 17 horas entre as respectivas estações telegráficas, transportando o discurso de investidura do Presidente Lincoln.
A cavalgada mais longa, 370 milhas (595 Km!), foi feita por Bob Haslam, entre as estações de muda de Friday Station e Smith Creek, no actual estado do Nevada. O percurso total demorava normalmente 10 dias no Verão e 12 a 16 dias no Inverno.
Outras Rotas: por água de Nova York a São Francisco (através do Panamá em mulas). Rota do Sul ou de Butterfield de St.Louis e Memphis a El Paso até Los Angeles e San Francisco.
O dia 24 de outubro de 1861 marcou o fim oficial do Pony Express com a conclusão da ligação telegráfica que o tornava obsoleto.
Financeiramente, foi um falhanço, uma vez que os proprietários gastaram 700.000 dólares e tiveram um prejuízo de 200.000. A companhia perdeu o contrato governamental por pressões políticas e pelo início da Guerra Civil Americana.
Seus pontos positivos foram: melhorar as comunicações entre o leste e o oeste, provando que a Rota Central era transitável durante todo o Inverno. Serviu de precursora ao estabelecimento do trem transcontinental nessa rota. Manteve abertas as comunicações com a Califórnia no início da Guerra Civil. Forneceu a mais rápida linha de comunicações entre o leste e o oeste até ao surgimento do telégrafo.
Captou a imaginação das pessoas de todo o mundo, até a de Bonelli como podemos ver na história "Pony Express" (Tex Coleção 111, 112 e 113 e Tex Edição Histórica 42), onde Kit Willer, ao ficar sem um vintém na sequência de um assalto à diligência onde viajava, se vê obrigado a empregar-se temporariamente no Pony Express, vivendo seu quinhão de aventuras trabalhando nesse histórico serviço.
Para finalizar a oportunidade de escrever estas linhas, cumprimento efusivamente o Gervásio e o Nilson, bem como seus colaboradores pela ocasião do 5º aniversário do Portal TEXBR, esperando que

PREFEREM-SE ORFÃOS

 

O Pony Express foi fundado em 3 de Abril de 1860, para o transporte diário de correio entre St. Joseph no Missouri, e Sacramento na Califórnia e ganhar fama para a rota escolhida, de forma ao Governo Americano atribuir o contrato de correio, no valor de 1 milhão de dólares à Central Overland California and Pikes Peak Express Company.
:
Realizado sem interrupção, através de uma estafeta realizada por cavaleiros que revezando-se, cobriam por etapas distância entre as referidas localidades. Era um serviço extremamente perigoso pelo que como dizia o anúncio para o serviço: "Preferem-se orfãos para este serviço". Os cavaleiros para o serviço deveriam ser jovens, tendo o mais jovem seleccionado 11 anos e o mais velho 43. Tinham de ser leves e magros também, pesando o mais corpulento dos escolhidos apenas 39,3 quilos.
Considerando-se que um xerife geralmente ganhava cerca de 40 dólares por mês, o pagamento no Pony Express era elevado para a época, 100 dólares por mês.

Cada cavaleiro percorria entre 75 a 100 milhas (120 a 160 quilómetros) no seu percurso e trocavam de montada a cada 10 a 15 milhas (16 a 24 quilómetros). Os cavalos corriam a uma velocidade média de 16 Km/hora.

Foram comprados 400 cavalos e criadas 165 estações de muda. O total do percurso somava 3200 quilómetros entre St. Joseph, Missouri a Sacramento, Califórnia, através dos Estados actuais do Kansas, Nebraska, canto nordeste do Colorado, Wyoming, Utah, Nevada, e Califórnia.

No início do serviço havia partidas uma vez por semana, tendo a partir de meio de Junho de 1961 passado a haver 2 partidas por semana. As mesmas eram feitas em ambos sentidos. O transporte mais rápido levou 7 dias e 17 horas entre as respectivas estações telegráficas, transportando o discurso de investidura do Presidente Lincoln.

A cavalgada mais longa, 370 milhas (595 Km!), foi feita por Bob Haslam, entre as estações de muda de Friday Station e Smith Creek, no actual estado do Nevada. O percurso total demorava normalmente 10 dias no Verão e 12 a 16 dias no Inverno.

 

Enduro Equestre - A DOMA É TUDO

Indice

por Jorge Guenka e Antônio Carlos Oliveira Freitas

Certa vez eu conheci um cavalo. Durante aquele ano ele ganhou todas as provas de velocidade livre com médias muito acima dos outros; esse cavalo era um verdadeiro fenômeno, andando na casa dos 16, 17 km por hora na época em que as médias ainda engatinhavam nos 13 km por hora em provas de longa distância. Já quase no final da temporada de enduro daquele ano, eu descobri o segredo daquele conjunto: o cavaleiro não conseguia segurar o cavalo!!! Andando como queria, era um pegasus, tinha asas ao invés de patas. Infelizmente, como era de se esperar, no ano seguinte sumiu das trilhas; havia estourado.
Quantos cavalos-fenômenos se perderam em virtude da falta de conhecimento de rédeas ou de uma equitação básica de seus cavaleiros? Todos já montaram ou conheceram algum cavalo de “difícil” equitação; ou que galopava somente em uma determinada mão; ou simplesmente que não tomavam o menor conhecimento da “ferramenta” que lhe haviam imposto pela boca. Abrindo um espaço para uma digressão; verdade seja dita, os cavalos que normalmente disparam em provas são extremamente habilidosos dentro de pistas e picadeiros fechados, mas isso é um assunto para outra prosa, para a qual eu ainda procuro a resposta.
Então, no enduro, é fato que muitos cavaleiros fazem uma doma “meia boca” e colocam os cavalos em provas, inclusive já ouvi vários treinadores, de diferentes modalidades hípicas, dizerem que cavalo de enduro só anda pra frente e pronto. Quanta ignorância condensada em tantas mentes brilhantes. Nem vou falar da troca de mão que isso é básico nos cavalos de enduro, mas o controle de velocidade nas mais diversas andaduras é o ápice de qualquer doma, desde a mais simples até a mais refinada e exigente, e sem isso nem adianta trabalhar o cavalo de enduro. Para saltar varas o cavalo tem de galopar reunido e com constante contato com as rédeas, no laço o cavalo trabalha em liberdade vigiada, teoricamente relaxado, mas pronto para explodir em uma corrida a qualquer momento e o enduro?
No enduro o cavalo tem de aprender a galopar solto, quase flutuando, e aí começa o primeiro problema da doma; para se ter controle de um cavalo, você necessita usar as rédeas, e, automaticamente, a tendência do cavalo é se retrair. Com tempo, paciência e dedicação você pode ensinar seu cavalo a galopar, reduzir para o trote ou passo e voltar ao galope apenas com movimentos do seu corpo em cima da sela: não estou aqui falando de uma eventual cavalgada tântrica, apenas de um grau maior de intimidade com o seu parceiro de prova. Parar, freiar, esbarrar, ou seja, lá a forma como você chama o ato de colocar seu cavalo na posição estática é outra parte muito interessante das domas tradicionais.
Eu particularmente aprendi que primeiro flexionaria o pescoço e em seguida arquearia o meio do cavalo, forçando por baixo a entrada dos posteriores em direção ao centro do cavalo e daí você teria uma linda esbarrada, macia e “xique no úrtimo”, mas a experiência com cavalos de enduro me mostrou que isso funciona muito bem na pista de areia lá de casa; na trilha, é queda quase certa, com o cavalo arqueado, os posteriores enfiados perto dos anteriores e uma pequena depressão no solo é o bastante para te mandar uns três metros à frente do seu cavalo que virá capotando por trás de você.
A doma do cavalo de enduro é muito mais difícil, mais demorada, e por isso mesmo é que recomendo começar a doma do provável cavalo de enduro aos três anos de idade: daí você terá dois anos de picadeiro, redondel e pista antes de começar a levá-lo para as trilhas e só aí começar o treinamento de fato. É sempre bom lembrar que o cavalo aprende melhor sendo recompensado a cada movimento correto, um relaxamento imediato da pressão, um afago ou palavras elogiosas em voz baixa e calma, do tipo - muito bem, bom rapaz, boa garota...”Isso porque o cavalo é sensibilíssimo ao tom de voz; durante o trabalho, a recompensa tem que ser imediata; ao invés de excessos de pressão a cada erro".
Alguns enduristas defendem a idéia de apenas começar a doma na pista e dar prosseguimento a ela na trilha, mas vejo aí um problema sério, pois você pode acabar por confundir a cabeça do cavalo, pois se levando em conta que ele aprende por repetição, muitos dos comandos usados no redondel e na pista podem acabar por excitar em demasia um cavalo, que vê a sua frente uma estrada longa e propícia a disparar... daí o resto você já pode imaginar. Como justificativa para esse erro comum, tenho visto muitos cavaleiros dizerem que seus cavalos tem muita vontade de andar, que tem muito gás, mas na verdade, o que ocorre é que o cavalo é um animal "predado", e sua única arma é correr, fugir sempre. Será que ao invés de "gostar de andar" o seu cavalo não quer é fugir de você?
O cavalo de enduro deve ser montado extensivamente sozinho na trilha, evitando assim a criação do hábito “saudável” de amadrinhar com outros cavalos. Isso é normal no cavalo, uma vez que é um animal de hábitos coletivos, mas na trilha isso pode atrapalhar muito. Todo endurista sabe das dificuldades de ter de empurrar seu cavalo só porque em determinado ponto da prova ele ficou sozinho na trilha, mas admito que já vi cavalos exaustos terminarem bem uma prova porque um outro cavalo o “rebocou” até o final.
Durante a fase final da doma, e início do treinamento, o cavalo deve ser montado em grupos de 3 ou mais cavalos, ser tirado muitas vezes para frente e para trás do grupo; cruzar insistentemente riachos e poças de água; conviver com bicicletas, motos, carros, pedestres e gado; carregar presos à sela canecos, cantis, capas e sacolas; usar capas de chuva e capas de inverno; conviver, mesmo que por algumas horas do dia, com outros cavalos no piquete; andar de trailer sozinho ou com outro cavalo; ser montado à noite; ser tranqüilo enquanto é escovado e selado; ter controle de velocidade e andar com rédeas soltas. Na doma do cavalo de enduro, a parte de adestramento e de rédeas pode ser concluída em médio prazo e ser lembrada diariamente por toda a vida por meio de um bom treinador, mas a ansiedade da largada e o medo de tudo que o cerca durante uma prova só vão ser domados durante a competição... por você!

 

Marchador no enduro

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Alexandre Archanjo

O Mangalarga marchador não deixa em nada a desejar em relação às outras raças quando pratica enduro eqüestre. É comum ver marchadores andando na frente em provas de curta e média distância (até 70 Km) mesmo quando competem com animais das outras raças. Há equipes que montam marchadores nas provas de enduro e são equipes campeãs nas categorias em que disputam provas, como algumas equipes que disputam o campeonato brasiliense de enduro (Vasco da Gama, Cortando Estrada, 100%Marcha Picada, entre outras). Sorte de quem pode ganhar provas e ainda montando animais de andamento cômodo.
Os exemplares da raça, em geral, têm cascos fortes, bons aprumos e corpo proporcional o que já é um bom começo, mas isso não garante o sucesso. O cavalo para se tornar um campeão tem que gostar do que faz, e, principalmente, gostar de vencer. Além disso, tem que “ter a sorte” de ser trabalhado por um treinador capaz de conduzir seu potencial da forma adequada.
A vontade de vencer, acima de qualquer outra característica é fundamental para um cavalo campeão em qualquer esporte. Os bons cavalos de esporte competem bem e até ganham provas, mas são limitados quanto à superação das adversidades. E sabemos que as provas, atualmente, independentes da modalidade eqüestre, exigem cada vez mais superação.
Devo alertar, porém, que superação não significa, sob qualquer justificativa, competir ou treinar com um animal lesionado ou exausto e, muito menos competir com um animal sem treinamento específico para o esporte desejado!
Os animais têm no encéfalo (principalmente no cérebro) os mesmos componentes funcionais relacionados ao processamento das emoções e do comportamento no ser humano, embora menos desenvolvidos que na espécie humana. Esses componentes formam o chamado sistema límbico, que existe também nos eqüinos e é também funcional. O cavalo, portanto, tem a capacidade, ainda que não comparável à do homem, de lidar com as situações agradáveis ou penosas, reagindo a elas das mais variadas formas. A vontade de vencer e a capacidade de superação dos cavalos que são grandes atletas provavelmente está associada a particularidades das conexões nervosas do sistema límbico desses indivíduos.
Os campeões já nascem com o potencial físico e mental que os levam a serem excepcionais, mas só o fazem com muito treinamento. E apesar de eu considerar a marcha um esporte, o treinamento para as provas de marcha não é o mesmo para os cavalos que disputam enduro. Mas esse é assunto para outro artigo.

Cavalos Mangalarga aguardando para largar – I Desafio Eqüestre
O treinamento de todo animal deve ser orientado, consistente e leal para com ele. Deve-se iniciar lentamente o condicionamento, a passo, para, meses depois treinar o cavalo. Dessa forma, além do trabalho físico, ele fica condicionado mentalmente à atividade esportiva, pelas sensações agradáveis, e mais motivado a fazê-la. Um cavalo motivado tem suas chances de vitória aumentadas, pois está sempre disposto a se superar.
Os cavalos que se superam a cada dia e precisam de manejo e treinamento especiais. Achar. Quando se tem um cavalo campeão, seu treinador e seu tratador também o são.
Para produzir um cavalo campeão em qualquer esporte é preciso conseguir o animal especial e confiá-lo ao treinador certo. Uma trajetória de sucesso se faz com uma “vontade” que nasce com o cavalo, o que pode ser em vão, sem a capacidade de um bom treinador fazê-lo campeão. O “algo mais” de um cavalo se completa com o “algo mais” do treinador.
Alexandre Archanjo Carneiro
Graduando em Medicina Veterinária na Universidade de Brasília – UnB.
Estagiário no Centro de Treinamento de Enduro Califórnia, Brasília – DF.
Estagiário no Hospital Escola de Grandes Animais da Universidade de Brasília – UnB.
alex_archanjo@pop.com.br

 

Terminar é vencer!

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por Jorge Guenka

Para vencer é preciso aprender a terminar! Pode parecer um despautério essa afirmação, haja vista que só vence quem termina, mas vou explicar melhor:
Você investiu uma quantia considerável para adquirir o cavalo ideal, levou junto o seu veterinário de confiança, seu treinador, seu ferrador, seu amigo que ” entende tudo de cavalos “ e mais alguns familiares, todos tiveram a oportunidade de conhecer seu futuro cavalo de provas. Gastou uma nota preta em radiografias, afinal você não é louco de comprar um cavalo sem radiografar todos os membros dele, e com isso constatou que são todos retos e consolidados. As articulações íntegras. Os tendões são macios e flexíveis. Os cascos deixaram seu ferrador impressionado, pois para um cavalo criado a campo eles são muito bem conservados, secos e arredondados, nem uma rachadura ou áreas de ressecamento excessivo.
Seu veterinário fez um hemograma completo, todos os parâmetros na mais perfeita normalidade. O pulmão do bicho é limpo igual banco de igreja. E o coração? Forte e grande com batidas certas, nenhum tipo de arritmia. Seu amigo que "entende tudo de cavalos" apaixonou pela cabeça do matungo e ainda disse que lombo bom não deve ser nem curto e nem longo, mas proporcional ao conjunto como um todo, e isso ele tem de sobra, a harmonia do conjunto.
Como você não é um novato no enduro, já sabia da idade mínima para começar a treinar seu cavalo, para não perder tempo comprou ele no auge dos seus cinco anos de idade, quase seis, logo ele vai estar correndo provas. Chegou a hora da verdade e você pode escolher como vai ser: Bate todos os recordes de velocidade, ganha todas as provas de velocidade livre que aparecerem e no ano seguinte começa todo o processo de compra novamente, pois é quase certo que não terá esse cavalo na próxima temporada e provavelmente nunca mais o terá, completamente detonado ele só servirá para dar umas voltinhas por ai; ou então abaixa a bola e aceita que para fazer um cavalo de longa leva o mesmo tempo que a seleção brasileira gastou entre o Tetra e o Penta!
Vamos partir do principio que você optou pelo caminho mais longo e aparentemente correto. Nesse caminho vai descobrir que o maior prêmio do enduro é montar um cavalo que você conhece até no jeito que ele respira, entende a forma com que ele coloca as orelhas assustado, irritado ou cansado, e que mesmo sabendo galopar nas duas mãos, saberá se ele prefere galopar na mão esquerda ou na direita, se ele tenta te enganar ao se fazer de cansado ou se realmente está cansado, e que quando você chega na cerca do piquete ele vem te recepcionar com um forte e animado relincho de boas vindas.
Nesse caminho mais difícil você pode acrescentar, já no primeiro dia de treinamento, mais quatro longos anos; o primeiro ano é de treinamento; o segundo ano vai ser fazendo provas de curta distância, mas sabendo que vai terminar no tempo máximo da prova, sempre largando atrás dos outros competidores; no terceiro ano repete o segundo ano, apenas as distâncias vão ser maiores, e vai poder aproximar mais seu cavalo do pelotão de largada; finalmente no quarto ano é de fato a hora da verdade, seu cavalo vai estar com algo em torno de nove a dez anos de idade, e vai ser um cavalo maduro, física e mentalmente. Você ensinou seu cavalo a terminar as provas e agora ao final de cada uma vocês dois já são vencedores. Talvez até mesmo vencedores da prova!

Jorge Guenka é carregador de balde da equipe Rancho Tree.

 

Programa básico de treinamento

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Fonte: Nas trilhas do Enduro

Este programa é apenas sugestivo. Cavalos e cavaleiros devem considerar suas particularidades físicas, nutrição, saúde, maturidade, categoria, finalidade e etc.
 1o mês - trabalhe os andamentos em velocidade lenta,perfazendo uma média entre 6 a 10 km/dia, durante 3 a 4 dias da semana, em uma velocidade média de 6 km/h;
2o mês - aumente a distância diária para uma média entre 10 a 16 km, sendo que ao final do período a velocidade poderá ser aumentada para 8 a 10 km/h;
3o mês - a distância pode ser aumentada para uma média entre 16 a 20 Km; 
4o mês - a velocidade pode passar para uma média de 14 km/h, mantendo-se a distância anterior
Obs.: Todo este trabalho inicial deve ser conduzido em terreno de topografia plana a levemente ondulada, solo de consistência macia e moderada e textura suave.
     5o mês em diante - o cavalo deve começar a ser preparado para enfrentar situações em regiões montanhosas. Um ou mais quilômetros morro acima, em velocidade lenta, é bem mais eficiente do que o dobro da distância em terreno plano. 
      O reconhecimento do percurso deve ser efetuado, de preferência, a cavalo, especificando em planilhas as distâncias de cada trecho de deslocamento entre os pontos de controle veterinário. Em cada trecho poderá ser determinado um tempo de conclusão, com a média horária podendo ou não ser informada, dependendo da experiência dos participantes. Para aumentar o grau de dificuldade os testes especiais devem ser desconhecidos dos concorrentes, devendo ser destinado um fiscal para cada teste especial e nas passagens pelos pontos de controle e chegada da prova.

 

Aspectos incomuns do treinamento de enduro eqüestre

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por Luiz Alberto M. de Carvalho e Silva
Muito se escreve acerca do como se treinarem cavalo e cavaleiro para provas de longa distância. Os artigos, em geral, versam sobre aspectos técnicos de fisiologia do esporte, metabolismo e tudo o que envolve o aprimoramento das capacidades físicas dos animais e dos humanos, afinal, sem eles não só não se ganham provas, como simplesmente não se chega ao final.
O treino, no entanto, não se resume nisso. Ele é, antes de tudo, o laboratório que definirá a estratégia de prova e esta transcende o corpo, atingindo profunda e determinantemente a alma de cavalo e endurista.
Nos oito anos de competição, montei inúmeros animais, alguns deles com plena familiaridade e outros que conheci ao montar para a largada. Se me perguntarem em qual das situações sinto-me mais à vontade, minha resposta será um peremptório “não sei”. Se com um animal com o qual estou familiarizado tenho uma razoável certeza do que posso contar e o quão longe posso ir, tenho apreensões extras relacionadas com seu comportamento, especialmente no que tange ao primeiro anel. Procuro muitas vezes antever suas reações e acabo por transmitir as apreensões para o cavalo visto que, com a sensibilidade que tem, percebe o nosso desconforto e passa a comportar-se de forma identicamente irracional.
Já com um animal estranho, dá-se o oposto. Verificamos-lhes as primeiras reações, generalizando-as e comportando-nos como se fossem elas seu padrão. Aí, simplesmente montamos, sem grandes exigências, sem grandes pretensões, devido ao fato de o desconhecimento de seus aspectos físicos não nos permitirem chegar próximo de seus limites, relaxando-nos e levando-nos a resultados surpreendentes.

É o treino que nos fará corrigir aspectos do comportamento do cavalo, bem como do nosso próprio. Dou como exemplo o VR Barão, garanhão filho de Son Glo, neto de Padron, que tenho montado nas provas de longa, desde o início do ano passado, quando prematuramente tive que aposentar o VR Sonfire. É um animal de inteligência superior e personalidade muito forte. Esperamos todos um comportamento complicado no primeiro anel e montamo-lo com essa expectativa mas, até hoje, não houve prova em que ele criasse algum tipo de problema, seja na largada, seja no decorrer do primeiro anel.

Do segundo em diante, pelo contrário, ele se torna dócil e alerta, como entendendo para o que veio e o que esperamos que faça. Ora, resta-nos, portanto, aprender a controlarmo-nos primeiro e a ele como conseqüência e essa excelência só se consegue com o treino. Assim, nunca me furto a montá-lo, por mais agitado que ele esteja na saída, mesmo na estação de monta, resguardando, nesse caso, estar ele sob os efeitos da testosterona, que o deixa muito mais arisco que o normal. Montado, porém, torna-se seguro de si e obediente, acrescentando-se o fato de não se assustar com coisa alguma e não ser brusco, seja nas provas, seja na antevisão de perigo.
Hoje, a não ser que a escala de treino não permita, procuramos emular o primeiro anel nos primeiros 20km de treino, tal que não nos comportemos de uma forma em casa e de outra nas provas. Os animais gostam de rotinas e quanto menos sairmos dela, melhor será o resultado.
Ir para a prova já se constitui numa quebra do cotidiano, quebra esta que é percebida pelos cavalos na semana que antecede o evento. A mudança de ritmo dos exercícios para garantir que estejam descansados e com reserva de energia, o arrumar dos arreios e demais apetrechos destinados às competições e tudo o mais prenuncia-lhes a viagem, deixando-os em estresse constante, não necessitando aumentar-lhes a ansiedade pela mudança de comportamento do cavaleiro.
No meu caso, como não enxergo, este aspecto assume proporções maiores. Soma-se a tudo o fato de que eu vou montar em trilhas que não conheço, criando em mim próprio uma certa expectativa. No primeiro ano como endurista isso pesava bastante. Fazia provas curtas de até 35km, que me pareciam 350km. Chegava absolutamente exausto e continuava cansado por uma semana. Era um cansaço mental causado pela tensão de cavalgar por locais cuja paisagem não me dizia nada, ou que minha tensão não me deixava aproveitar. Eis o porquê de colocar-me no lugar do animal e tentar sentir o que ele sente ao ir para uma nova etapa. Se eu, com minha humanidade e meus 47 anos de idade, ainda sinto ansiedade, como não se sentirá o Barão, com seus dez anos de vida e os limites impostos por sua condição?
Muitos poderão dizer que seus cavalos comportam-se com extrema calma. Esse louvável comportamento deve-se a inúmeros fatores, dos quais destaco três: sua índole, sua doma e, principalmente, a confiança que sentem em seus tratadores e cavaleiros. Sobre as costas de Barão, além de meus 82kg, pesa a responsabilidade de conduzir-se a si próprio. Embora seja verdade que há sempre um companheiro comigo, há que se fazer a distinção sobre a acuidade dos comandos. Em outras palavras, eu não conduzo o cavalo. Minhas rédeas, embora com o contato necessário à boa técnica de equitação, não mostram o caminho a seguir. Não há, pois, como ele se apoiar na minha condução e competência. Some-se a isso que sou eu quem vai na frente, para que o meu companheiro não tenha que olhar para trás, a fim de verificar o que está acontecendo comigo.
Há de ser ele a tomar grande parte das decisões, no que é ajudado pelas características gregárias de sua natureza eqüina. Certamente, o esforço mental exigido de meu cavalo há de ser muito maior que o da média dos animais de enduro. Seu comportamento é equiparável ao de um cão guia, o que, como todos sabemos, requer ensino específico e aprimorado. Também é o ambiente em que tais noções são passadas ao cavalo, que leva meses, se não anos, para dominar suas tarefas.

Eu costumo dizer que um cavalo com doma para hipismo assemelha-se a uma bicicleta. Sua educação destina-se à pronta obediência aos movimentos de rédeas e de pernas, a fim de seguir uma pista demarcada em um picadeiro. São animais condicionados a serem conduzidos o tempo todo e, se deixado à própria sorte, têm dificuldades para definir a direção a seguir. Esses cavalos, embora eu também os monte, dão muito trabalho ao acompanhante, haja vista que terá que me dizer o tempo todo o que fazer, enquanto que, num animal treinado para meu uso, o trabalho é infinitamente mais relaxado e seguro para todos.
Estou escrevendo este artigo após tê-lo montado por duas horas em meio a um reflorestamento de eucaliptos, de cujos galhos ele desviou-se, tal que não rocei com minha cabeça qualquer um deles, mesmo estando a galope, quando o Barão tem que calcular minha altura, embora ela varie de acordo com seus galeios.
Embora reconheça o esforço extra dos meus animais em assumir o papel de guias durante as provas, compreendo perfeitamente que minha postura tirou-me de inúmeras confusões. Nas trinta e quatro provas oficiais de que participei, só perdi uma ferradura. Mesmo nessa ocasião, ocorreu que, por ser de alumínio e por ser o piso pedregoso, ela se gastou. Isso se deve a que, por não guiar meu cavalo excessivamente, não o obrigo a pisar onde ele mesmo não acha seguro. Assim, deixo-o evitar as poças d’água, os buracos e saltar todos os obstáculos que ele julgar necessário.
A minha ida para o CT Marechal, sem dúvida, causou mudanças na forma de treinarem-se os cavalos. A primeira delas foi a escala de trabalho porque vou montar todos os fins-de-semana, chova ou faça sol. Portanto, é preciso que haja sempre um cavaleiro disponível para acompanhar-me. No princípio, saía sempre com o Vilson Nunes, montando Bodolay, e meus companheiros de provas. Hoje, porém, variam-se cavalos e cavaleiros a fim de diminuir a dependência. Todos passaram a entender os comandos de voz que dou aos meus cavalos, adotando-os também para os seus, influência esta bastante benéfica, pois, mesmo que estejamos impossibilitados de usar os comandos de rédeas e pernas mais usuais, ainda mantemos os cavalos sob controle. Além disso, eles também passaram, embora enxergando, a deixar seus animais mais livres para decidirem por si mesmos, escolhendo onde pisar e em que passo vencer esse ou aquele obstáculo.
Resumindo, o sucesso que alcançamos vem de muito treino em que o CT Marechal teve tanto empenho quanto eu mesmo, louvando-se a sempre surpreendente capacidade dos cavalos em entender o que precisamos e estarem sempre dispostos a nos agradar.

 

Treinamento de resistência e limiares metabólicos

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por Prof. Dr. Fernando Gondim, PhD
Exercício de enduro e fadiga
O termo endurance pode ser fisiologicamente definido como resistência à fadiga. Precisamente não se trata de resistir, mas de retardar ou limitar o aparecimento da fadiga. O conceito de fadiga envolve a incapacidade fisiológica de prosseguir com o esforço, que no caso de competições de enduro, é um esforço sub-máximo e prolongado. Este esforço sub-máximo pode envolver três tipos de exercício, sub-limiar, limiar e supra-limiar. Esta classificação tem como base o consumo muscular máximo de oxigênio, que delimita os metabolismos aeróbio e anaeróbio.

A fadiga em termos simples pode ser definida como a incapacidade orgânica de manter um suficiente fornecimento de energia, em condições de aumentada demanda energética. Esta incapacidade resulta em uma deficiência na manutenção de uma determinada tensão muscular por um determinado tempo. A fadiga que se desenvolve durante a contração muscular voluntária máxima tem uma causa diferente daquela que ocorre quando as contrações são moderadas e repetitivas. Ambas também são diferentes daquela que ocorre durante a prática de exercícios em ambientes quentes. Portanto, todas as formas de fadiga são resultantes da falência energética muscular, e vários são os fatores que podem contribuir para o aparecimento desta falência durante o exercício físico de endurance:

  • A capacidade orgânica em absorver, distribuir e utilizar o oxigênio;
  • A disponibilidade de suficientes reservas de substratos energéticos (carboidratos, gorduras, proteínas e ácidos graxos voláteis) e a capacidade de mobilização e utilização destes substratos;
  • A capacidade orgânica de evitar a acidificação (abaixamento de pH) no interior da fibra muscular.
  • A capacidade do organismo em transportar e metabolizar o lactato formado pelo metabolismo anaeróbio;
  • A ocorrência de estresse térmico (elevação excessiva da temperatura intra muscular), provocando a diminuição e/ou inativação de reações metabólicas importantes;
  • A ocorrência de estresse oxidativo (aumento na formação de radicais livres), alterando tanto a permeabilidade das membranas celulares quanto importantes reações metabólicas responsáveis pela manutenção da integridade celular.
  • A ocorrência de estresse mecânico, provocando danos ósseos, articulares e musculares, que poderão provocar manqueiras e períodos de inatividade.

Metabolismo energético
Em competições de longas distancia e duração, uma boa estratégia de consumo das reservas energéticas é indispensável. O glicogênio muscular e a reserva de gordura devem ser metabolizados pela via aeróbia, proporcionando um maior rendimento energético. A glicose liberada das reservas de glicogênio muscular, quando metabolizada (oxidada) na presença de suficiente quantidade de oxigênio (via aeróbia), produz 36 moléculas de ATP – O ATP ‘e a moeda energética do músculo -. A utilização da glicose em condições de insuficiente quantidade de oxigênio (via anaeróbia), produz duas moléculas de ATP e duas moléculas de lactato. Uma molécula de acido graxo, constituinte da gordura tecidual, só pode ser utilizada como combustível em condições de exercício, na constante presença de suficiente quantidade de oxigênio (via aeróbia), e pode gerar aproximadamente 140 moléculas de ATP. A oxidação das gorduras também requer um continuo fornecimento de glicose proveniente essencialmente da reserva de glicogênio muscular. Portanto, e importantíssimo preservar a limitada reserva muscular de glicogênio, evitando o trabalho anaeróbio, bem como favorecer o reabastecimento desta reserva durante os intervalos de competição (Vet chek).
Em condições de repouso uma pequena quantidade de lactato esta presente no sangue (aproximadamente 1,5 umol/l). Durante exercício aeróbio esta taxa sangüínea se mantém. Em condições de competição, esta taxa pode aumentar devido a descarga de adrenalina e eventuais momentos de trabalho anaeróbio. Este eventual acúmulo sangüíneo de lactato produzido no músculo em exercício e transportado ate o sangue, pode ser distribuído para outros músculos que estejam sendo menos utilizados, e poderá ser totalmente metabolizado (oxidado), caso haja suficiente quantidade de oxigênio. Se o organismo se encontrar em uma condição de debito de oxigênio, o lactato se acumulara.
Este estado metabólico, onde ocorre um continuo acúmulo de lactato, coincide com um abaixamento de pH no interior da fibra muscular, provocando o aparecimento da fadiga muscular. Durante o repouso nos Vets, o lactato acumulado pode novamente gerar glicose no fígado, e também contribuir para a reposição da reserva muscular de glicogênio. Mesmo durante o exercício, em trechos onde diminuímos a intensidade de esforço, o lactato e utilizado como combustível e seus valores sangüíneos caem.
A utilização de dados metabólicos no monitoramento do treinamento de cavalos de enduro
O conhecimento das características atléticas intrínsecas de qualquer indivíduo, humano ou animal, e seu potencial de desempenho é desejável em qualquer modalidade esportiva. Esta caracterização pode ser feita através de parâmetros metabólicos estáticos e dinâmicos. Dentre os parâmetros estáticos podemos citar a tipagem muscular através de biopsia.
Em nosso laboratório na UNICAMP, além da tipagem muscular, utilizamos vários parâmetros bioquímicas para monitorar adaptações provocadas pelo treinamento. Os parâmetros dinâmicos mais comumente utilizados são, a utilização de índices de recuperação cardíaca, o consumo máximo de oxigênio (VO2 max.), e a determinação do limiar metabólico aero/anaeróbio de lactato. Estes dois últimos parâmetros metabólicos são comumente usados em fisiologia do esforço humano.
A determinação da VO2 max. em eqüinos e normalmente difícil e dispendiosa, exigindo a utilização de uma mascara acoplada a um dosador de gazes. Este aparelho denominado respirômetro é utilizado de maneira fixa ou portátil (Figura 1 – portable respirometer). Uma esteira rolante também pode ser utilizada visando, dentre outras coisas, um rígido controle da velocidade. Em nosso laboratório na UNICAMP, desenvolvemos um protocolo de determinação de limiar aplicável em condições de campo, usando-se um lactímetro portátil. Esta técnica pode ser empregada tanto em laboratórios que dispõem de esteira rolante, quanto em cavalos montados sobre uma pista plana.
O consumo máximo de oxigênio determinado por respirometria nos informa o volume máximo de oxigênio que esta sendo consumido por todo o organismo. O limiar metabólico aero/anaeróbio determinado através de dosagens sangüíneas de lactato, fornece informações rápidas e confiáveis sobre o consumo muscular Maximo de oxigênio.
A analise da cinética de acumulo e remoção do lactato produzido durante o exercício facilita a interpretação das respostas fornecidas pelos cavalos estimulados pelo treinamento. Este mecanismo de estimulo e resposta, e a essência do trabalho de condicionamento físico.
Na medicina veterinária desportiva eqüina, nos deparamos com um grande problema: A interpretação e tradução dos dados fornecidos pelos cavalos em treinamento. Ou: A avaliação das respostas fisiológicas a um processo adaptativo induzido pelo treinamento. Este trabalho de interpretação e analise, e delegado a profissionais com diferentes níveis de formação técnica, e em sua maioria, utilizam apenas índices de recuperação cardíaca como ferramenta de trabalho. A precisão desta tradução é limitada. As informações obtidas são freqüentemente subjetivas e não possuem um padrão ou linguagem que possibilitem sua fiel transmissão. Certamente a substituição de avaliações empíricas por um adequado repertório de parâmetros fisiológicos, pode contribuir para um melhor desempenho atlético eqüino. Esta contribuição pode ser verificada tanto na fase de preparação, quanto durante uma competição de longa duração, onde parâmetros pré-estabelecidos podem orientar uma adequada estratégia de utilização das reservas energéticas.
Evidentemente, caso saibamos previamente qual é a velocidade limiar individual aero/anaero de um cavalo, e sua correspondente freqüência cardíaca, poderemos mantê-lo em exercício limiar ou sub-limiar por um maior período de tempo, evitando assim a utilização da via metabólica anaeróbia, e conseqüentemente o aparecimento da fadiga.
A determinação de limiar de lactato, também se mostrou útil no decisivo momento de formação de uma equipe. Ela possibilita ao técnico, comparar indivíduos, e optar por aqueles que apresentarem uma maior resistência aeróbia.
O treinamento de cavalos de enduro
Em eqüinos de sela a utilização de metodologias para o monitoramento de adaptações induzidas pelo treinamento são talvez mais importantes do que em humanos, pois estes animais, apesar de possuírem características orgânicas naturais de um atleta, são submetidos a um regime artificial de vida e involuntariamente exercitados.
Quando pensamos em eficiência metabólica, nosso objetivo enquanto treinadores de cavalos ‘e estimular uma crescente captação pulmonar de oxigênio, uma crescente eficiência da bomba cardíaca em fornecer progressivamente maiores quantidades de oxigênio aos músculos, para que estes possam consumir totalmente, crescentes quantidades de glicose, sem acumulo “extra” de lactato.
A resistência aeróbia de um cavalo jovem ainda não treinado, bem como uma elevada resistência aeróbia induzida pelo treinamento de enduro, é desejável, e é fator determinante de um bom desempenho em competições. Portanto, metodologias que nos proporcione informações quanto ao consumo de oxigênio, e conseqüentemente o condicionamento físico aeróbio do atleta, são importantes ferramentas que podem ser utilizadas tanto na escolha de cavalos com elevada aptidão para o enduro, quanto para o monitoramento do treinamento de resistência.
Um adequado e racional protocolo de treinamento para cavalos atletas, envolve a utilização de exercícios aeróbios e anaeróbios. Alem destes dois conceitos clássicos de amplo conhecimento publico, outros três conceitos são importantes e devem ser considerados na pratica cotidiana do treinamento eqüino. Certamente a maioria dos treinadores de cavalo estão familiarizados com estes conceitos: Exercício sub-limiar, Limiar e Supra-limiar. Provavelmente estes três tipos de exercícios são utilizados rotineiramente pela maioria dos treinadores de cavalo de enduro. Minha intenção e apenas apresentar de maneira didática esta conceituação, e utilizar esta sistematização como argumento para justificar a aplicação, em treinamento de cavalos de enduro, de metodologias cientificas simples e razoavelmente baratas, que possibilitem a determinação de limiares metabólicos, como o limiar aero/anaeróbio.
Determinação do limiar aeróbio/anaeróbio em cavalos de enduro usando o protocolo de velocidade de lactato mínimo (LMS – Lactate Minimum State)
Neste capitulo descreverei detalhadamente como são realizados os testes para se determinar a LMS, transcrevendo partes de um trabalho cientifico apresentado em congresso internacional especializado em desporto eqüino. A discussão dos resultados obtidos com cinco cavalos oferece uma boa exemplificação da aplicabilidade da técnica.
Tabela 1: Caracterização dos cavalos usados na determinação da LMS.


Cavalo

Raça

Idade (years)

Sexo*

Peso(Kg.)

FC. Repouso(bpm)

Lactato repouso(mmol/L)

1

Árabe

7

C

390

36

1.2

2

Q. M #

10

C

445

38

1.6

3

Árabe

6

G

400

35

1.3

4

A/Árabe

12

G

410

32

1.6

5

A/Árabe

9

C

510

39

1.5

(*) G - garanhão C - castrado (#) Quarto de milha.
O princípio desta técnica baseia-se em uma grande elevação inicial do lactato sangüíneo, induzida por um exercício em alta intensidade. Neste primeiro exercício determinamos o exato momento em que ocorre o pico de lactato pós-exercício. Em seguida, uma série de exercícios em velocidades sub-máximas e crescentes é realizada. Esta serie de exercícios, inicialmente aeróbios, provoca inicialmente uma progressiva diminuição nas concentrações de lactato sanguíneo, principalmente devido a sua metabolização muscular (oxidação) até atingir níveis mínimos. Com o incremento da velocidade, os valores sangüíneos de lactato voltam a se elevar, devido a ultrapassagem do limiar aero/anaeróbio e predominância do metabolismo anaeróbio produtor de lactato. A velocidade de limiar, e sua correspondente freqüência cardíaca, é determinada quando a curva descendente de lactato atinge o ponto mais baixo, onde os valores de lactato encontrados, são próximos ao de repouso. A lactatemia de repouso e determinada individualmente pela manha, e com o cavalo em jejum. Portanto, trata-se de uma metodologia que individualiza a determinação de parâmetros metabólicos, utilizando como referencia a taxa sangüínea de lactato em repouso.

Figura 1. Gráfico representativo do protocolo de determinação do limiar aeróbio/anaeróbio usando o protocolo LMS.
Utilizamos em nossos experimentos os proprietários dos cavalos, que também são seus cavaleiros. Este cuidado visou eliminar possíveis variáveis extrínsecas relacionadas ao psiquismo e biodinâmica dos conjuntos (cavalo/cavaleiro), que poderiam provocar variações consideráveis nos resultados. Desta forma, estes parâmetros podem ser obtidos sob reais condições de competição, e podem ser utilizados durante treinamentos e competições oficiais.

O acompanhamento individualizado da LMS serve como parâmetro de referencia para prescrição da intensidade de trabalho e avaliação do treinamento. Quando prescrevemos um trabalho sub-limiar, limiar ou supra-limiar, obviamente temos que ter em mente a exata intensidade de esforço correspondente ao limiar metabólico de cada cavalo. Um adequado trabalho em continuo galope, visando um aumento na resistência aeróbia, deve ser realizado na exata intensidade de limiar. Um trabalho abaixo desta intensidade pode não ser tão eficiente. Por outro lado, um galope acima desta intensidade, pode ser desgastante a ponto de provocar um overtraining.
A determinação do limiar de lactato por nos desenvolvida e constituída de três diferentes protocolos:
Protocolo 1 - Determinação do pico de lactatemia (PL).
Protocolo 2 - Determinação da máxima velocidade em mínima lactatemia (LMS).
Protocolo 3 - Confirmação da LMS.
O protocolo 1 pode ser usado separadamente, e fornece interessantes informações quanto à capacidade muscular de exportar lactato. Esta adaptação da fibra muscular ‘e desejável e traduz uma melhora do condicionamento físico. A realização previa do protocolo 1 proporciona uma melhor execução do protocolo 2.
O protocolo 3 serve para corrigir eventuais imprecisões na aplicação do protocolo 2.
Protocolo 1. Determinação do pico de lactato após exercício intenso.
Sua execução consiste na realização de um galope de 500 m em máxima velocidade, em terreno plano e macio, e apos um prévio aquecimento. O pico de lactato (PL) é determinado retirando-se uma pequena quantidade de sangue da veia jugular, e depositando uma gota em uma tira reagente descartável (BM-Lactate), que ‘e lida em um lactímetro portátil (Accusport-Boeringer Mannheim) (Picture 2 - Accusport). Ao final do galope e com os animais parados, a lactatemia e dosada em intervalos de 2 min durante 20 min. Desta forma determinamos o momento em que ocorre o mais alto valor sangüíneo do lactato.
A Tabela 1 mostra os tempos necessários para que ocorra acúmulo do lactato muscular na corrente circulatória nos cinco cavalos, e também seus máximos valores. Para os animais 1 e 3, esta primeira avaliação foi feita antes do início do treinamento.
Tabela 2. Pico de lactato e tempo de pico de cinco cavalos após galope em máxima velocidade.


Cavalo número:

[lactato] no pico (mamou/L)

Tempo p/ formação do pico (min)

1

13,4

15

2

7,3

1

3

8,5

9

4

8,7

3

5

7,7

1

Podemos notar que os tempos necessários para o acúmulo máximo do lactato na corrente sangüínea são variáveis entre os animais. Os cavalos 1 e 3, que não tinham históricos prévios de treinamento tiveram um PL lento. Quando comparamos estes dados com os dos outros cavalos notamos que os PLs dos animais 2, 4 e 5 são mais rápidos. O cavalo 2 possuía um histórico prévio de prática desportiva em outra modalidade (laço de bezerro em dupla) e pertence a outro grupo racial (Quarto de Milha). Os cavalos 4 e 5 são da raça Anglo-árabe. O cavalo 4 não possuía histórico prévio de treinamento, mas foi o cavalo mais velho a ser examinado (12 anos). O cavalo 5 já havia praticado salto de obstáculos, mas estava há um longo tempo sem se exercitar, e apresentava-se magro. Além da raça, os dois possuíam em comum o fato de serem animais mais velhos, estando o cavalo 5 com aproximadamente 10 anos de idade. Portanto, também é importante individualizar o tempo de descanso antes de iniciar a série de exercícios sub-máximos e crescentes do protocolo 2.
Esses dados mostram que características individuais intrínsecas como, raça, idade, sexo, peso, e extrínsecas como: estado nutricional, histórico desportivo e variáveis relativas ao conjunto (cavalo/cavaleiro), devem ser consideradas na interpretação dos resultados.
A fim de verificar se o pico de lactatemia sangüínea poderia ser utilizado como parâmetro adaptativo de condicionamento físico, realizamos este mesmo teste nos cavalos 1 e 3, após um ano de treinamento para enduro, constituído de longas sessões de trabalho aeróbio em velocidades sub-limiares. Os dados estão apresentados na Tabela 2.
Tabela 3. Pico de lactato e tempo de pico dos cavalos 1 e 3 após galope em máxima velocidade, após um ano de treinamento


Cavalo número:

[lactato] no pico (mamou/L)

Tempo p/ formação do pico (min)

1

12,3

2

3

12,4

1

Os resultados mostram que o intervalo de tempo para a formação do pico de lactato diminuiu muito, sendo quase que imediato, apresentando também valores mais altos de lactatemia quando comparado aos mesmos valores obtidos um ano antes. O aumento na velocidade de acúmulo do lactato sangüíneo, após um período de treinamento de resistência e uma adaptação desejável induzida por este treinamento. Estes dados estão em concordância com dados da literatura para diferentes espécies animais e também em humanos. Segundo a literatura, esta adaptação e devida a um aumento na atividade e no numero dos transportadores de lactato existentes na membrana da fibra muscular. A determinação do exato momento onde ocorre a formação do pico de lactato (protocolo 1), deve ser previamente observada, para evitar uma incorreta aplicação do protocolo 2.
Protocolo 2: Determinação da máxima velocidade em mínima lactatemia (LMS).
Iniciamos o protocolo 2 com outro galope de 500 m, e dosamos a concentração do lactato sangüíneo no tempo de pico previamente determinado no protocolo 1. Os cavalos permanecem em repouso enquanto aguardamos o tempo de pico. Após este galope rápido, "tiros" de 1.000 m. denominados (Tn), são executados seqüencialmente em velocidades sub-máximas e gradualmente aumentados. Ao final de cada "tiro", a freqüência cardíaca e anotada, com o auxilio de um cardiofrequencímetro (Polar), e a lactatemia e dosada. O tempo também é cronometrado para a determinação da velocidade. O intervalo entre cada "tiro" e de 2 min, sendo que, (T1) e (T2) são feitos a trote e os demais tiros a galope. Realizamos tantos "tiros" quantos forem necessários, até evidenciarmos a re-elevação dos valores de lactatemia, após uma fase de decréscimo que se aproxima dos valores de repouso (Figura 1). A velocidade em (T1) foi de aproximadamente 12 km/h. Os tempos parciais a cada 200 m são utilizados para a manutenção de uma velocidade constante, que deve ser controlada pelo cavaleiro.
Os resultados de velocidade, freqüência cardíaca e lactato na LMS dos cinco cavalos estão apresentados na Tabela 4.

Tabela 4: Valores de velocidade limiar, freqüência cardíaca equivalente e concentração sanguínea de lactato, no limiar, de cinco cavalos


Cavalo número:

Velocidade(Km/h)

Freqüência Cardíaca(bpm)

[Lactato](mamou/L)

1

20

120

1.7

2

25,5

129

1.5

3

23

125

1.5

4

21

129

1.4

5

18

120

1.6

Podemos observar que o cavalo 2, que possuía um histórico prévio de prática desportiva em outra modalidade, e pertence a outro grupo racial, apresentou uma LMS mais alta. A LMS do animal 5 foi a mais baixa encontrada, provavelmente devido ao fato de possuir um longo período de sedentarismo em seu histórico desportivo e apresentar-se magro. Os demais resultados são aproximados, configurando um grupo razoavelmente homogêneo de cavalos não treinados.
Uma nova determinação de LMS foi realizada nos cavalos 1 e 3 um ano após o início do treinamento para verificar o efeito deste sobre a potência aeróbia. O treinamento adotado neste ano foi predominantemente aeróbio, constituído de longas sessões (4 a 7 horas) em velocidades sub-limiares. Esporadicamente trechos mais acidentados provocavam a ultrapassagem da freqüência cardíaca de limiar. Os valores da velocidade de limiar (LMS), concentração de lactato mínimo e freqüência cardíaca atingidas nas velocidades de limiar para os cavalos 1 e 3 estão apresentados na Tabela 5.
Tabela 5. Valores de velocidade limiar, freqüência cardíaca equivalente e concentração sanguínea de lactato, no limiar, dos cavalos 1 e 3 após um ano de treinamento.


Cavalo número:

Velocidade(Km/h)

Freqüência Cardíaca(bpm)

[Lactato](mamou/L)

1

23,9

140

1.5

3

30

130

1.5

Podemos observar que o treinamento empregado foi eficiente em aumentar a potência aeróbia dos cavalos, com um efeito mais significativo no cavalo 3, pois o cavalo 1 aumentou sua velocidade de limiar de 22 para 23,9 km/h e o cavalo 3 de 23 para 30 km/h.
Dosamos, concomitantemente, a glicemia ao longo da determinação da LMS. Este monitoramento foi realizado visando determinar se a glicemia poderia ser utilizada como parâmetro para determinação de limiar, conforme revisão da literatura para humanos. Portanto, o gráfico de determinação da LMS para o cavalo 2 (figura 2), mostra em vermelho as concentrações de lactato e em azul, as concentrações de glicose dosadas neste experimento. As linhas pontilhadas correspondem aos valores de lactato e glicose em repouso, e os números entre parênteses correspondem aos valores de freqüência cardíaca.

Figura 2: Gráfico de determinação da LMS. Limiar de lactato e concentração de glicose no cavalo 2.
As taxas sangüíneas de lactato em eqüinos podem variar de 1,2 mamou/L (repouso), até 30,0 mamou/L. Esta variação é em função do esforço empregado e da capacidade orgânica de transporte do lactato. Quanto à glicemia, sua variação é regulada hormonalmente entre um patamar inferior e um superior, que em eqüinos varia de 70 a 130 mg/dL. Portanto uma correlação entre lactatemia e glicemia em condições de exercício possuiu limitada aplicabilidade.
Constatamos que as concentrações de glicose são influenciadas por fatores psíquicos e hormonais, e, portanto, diferentemente de humanos, uma determinação de limiar metabólico aero/anaeróbio, usando-se dosagens de glicose como parâmetro, não deve ser utilizada em cavalos. Alias, freqüentemente metodologias usadas em humanos apresentam diferentes resultados em cavalos.
Constatamos também que na determinação de limiar de lactato através desta metodologia, obtivemos na velocidade de limiar, valores de lactatemia similares aos de repouso. Isto é, a intersecção das curvas de acúmulo e remoção de lactato ocorre próximo à linha de lactatemia de repouso (figuras 1 e 2). Portanto, a intensidade de esforço, suficiente para elevar minimamente a lactatemia acima de seus valores de repouso, é a velocidade imediatamente superior à velocidade de lactato mínimo (LMS).
Acreditamos que o limiar será mais preciso, quanto mais próximo for o valor de lactato no limiar, do valor de lactato em repouso. Observamos que a dificuldade em controlar rigidamente a velocidade é a responsável por eventuais imprecisões. Portanto, seria de grande valia o emprego desta metodologia sob condições de rígido controle da velocidade, proporcionado pela utilização de esteira rolante específica para cavalos. Também recomendamos a utilização do maior numero possível de tiros, proporcionando um suave incremento na velocidade. Desta forma obteremos uma curva com vários pontos, possibilitando uma determinação mais precisa da LMS.
Protocolo 3: Confirmação da LMS.
Neste terceiro experimento denominado Confirmação de Limiar (CL), verificamos se a LMS determinada no experimento II estava correta. Submetemos estes mesmos animais a uma corrida de 10.000 m, nas mesmas condições de pista já descritas e na velocidade do limiar pré-determinada no experimento anterior. A cada 2.000 m, após a aferição do tempo de corrida e anotação da F.C., a corrida era interrompida momentaneamente para retirada de sangue para dosagem de lactato. A zona alvo do cardiofreqüencímetro foi ajustada na F.C. correspondente ao limiar.
Exemplificamos os resultados por nos obtidos, apresentando o gráfico do cavalo 1 (figura 3). Nesta figura as linhas pontilhadas em vermelho correspondem aos valores de lactato na LMS. Os números entre parênteses correspondem à freqüência cardíaca, e os números entre colchetes correspondem às velocidades empregadas em cada volta de 2.000 m. da corrida de 10.000 m.

Figura 3: Gráfico da confirmação de limiar do cavalo 1. Concentração sanguínea de lactato e glicose. Freqüência cardíaca ( ). Velocidade [ ].

Nos cavalos 1, 2, 3, e 4 ocorreu a ratificação da velocidade de LMS. As variações de velocidade ocorridas devem-se à dificuldade de manutenção de velocidade constante nas condições de campo, nas quais os experimentos foram realizados.
No cavalo 5 ocorreu uma mudança de cavaleiro. A diferença de peso entre o cavaleiro usado na determinação de limiar, e o usado na sua confirmação, foi de 38 kg a menos. Esta troca resultou em uma LMS diferente na confirmação de limiar, de aproximadamente 5 km/h a mais. Isto é, com o cavaleiro mais pesado a LMS aferida foi de 18 Km/h. Ao utilizarmos o cavaleiro mais leve, por uma razão compreensível e lógica, o animal deslocou-se a uma velocidade de aproximadamente 23 Km/h, sem acumular lactato. Portanto, a determinação da LMS em condições de campo, como parâmetro de condicionamento físico em cavalos de sela, deve ser realizada com o cavalo montado pelo seu próprio cavaleiro, pois diferenças de peso e nível de equitação podem proporcionar diferentes resultados.
A coerência teórica da determinação de limiar pelo protocolo LMS, confere confiabilidade aos dados obtidos, e proporciona aos treinadores parâmetros científicos obtidos a campo, e facilmente aplicáveis. A determinação periódica da LMS pode ser utilizada, respeitando-se diferenças raciais e individuais, para a modulação da intensidade de esforço no treinamento físico aeróbio e anaeróbio, e também acompanhar a evolução do condicionamento físico ao longo do tempo.

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