MUNDO DO CAVALO

 

O usuário cadastrado desfruta de conteúdo exclusivo e gratuito.

 


Faça com que as coisas erradas fiquem difíceis

e as coisas certas fiquem fáceis.

Ray Hunt

 

Bridão ou Freio?
Doma e horsemanship
O Redondel
Pensando Cavalo
Tom Dorrance
Sobre a motivação do cavalo
Levantando o véu
Dar tempo a quem precisa de tempo
Conquistando um bom esbarro
Controle a nuca do seu cavalo
DEZ CARACTERÍSTICAS QUE IDENTIFICAM UM BOM CENTRO EQÜESTRE
DEZ CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM EQUITAÇÃO
DEZ CAVALOS QUE MARCARAM MINHA VIDA
DEZ MAIORES ESTUDIOSOS DA EQUITAÇÃO
DEZ CARACTERÍSTICAS DE UM BOM CAVALO DE SELA
DEZ FATOS QUE MARCARAM A RELAÇÃO HOMEM-CAVALO

Bridão ou Freio?


Indice

De: Julio Nottingham

Bridão ou freio? Esta é uma das questões mais discutidas entre os cavaleiros de todas as modalidades.
Na hora de iniciar uma doma ou praticar uma modalidade específica, dúvidas surgem sobre o que usar e quando trocar a ferramenta que vai à boca do seu cavalo.

Primeiramente vamos separá-los por tipos


Bridão

 

 

Dois segmentos unidos, articulados no centro e nas extremidades, também articulado e fixados em argolas ou  D´s (como o da foto). Existem muitas outras variações de bridões, com duas articulações, torcidos e etc. O segmento da boca pode ser curvado ou não.

 

Freio Bridão

 

 

Segue o mesmo sistema da embocadura do bridão, mas a ele são adicionados “braços” (da embocadura para cima) e “pernas” (da embocadura para baixo)

 

Freio

 

Existem centenas de modelos diferentes de freios. O da foto ao lado é um freio de embocadura rígida e com um “ômega”. Também existem freios com o omega articulado, em forma de meia lua, etc, e outros formatos e tamanhos diferentes.

 

Hackmore

Existem ainda o hackmore (a esquerda), hackmore mecânico ( a direita) e professoras (abaixo). Esta última é uma adaptação regional usada principalmente no nordeste do Brasil, em cavalos de vaquejada.
O Hackmore legítimo, usado pelos vaqueiros americanos como os da Califórnia, os Buckaroos, e também no Brasil, por profissionais como Eduardo Borba, são feitos em material natural, tipo couro e crinas de cavalos. Estes hackmores são utilizados durante algum tempo pelos buckaroos, onde, após escolarizar os cavalos somente com o hackmore, passam ao uso de quatro rédeas, sendo duas do hackmore, que permanece e duas do “Romel”, que é um tipo de rédea especial, com balanceamento e peso específico, que trabalha em um freio do tipo “space bit”. O uso do hackmore legítimo na escolarização destes animais, associado em seguida ao uso do Romel e Space Bit até evoluir para o uso apenas do Space Bit, é um processo muito refinado que faz parte da escola dos buckaroos, verdadeiros artistas da equitação vaqueira.
Já o hackmore mecânico e a professora seguem o princípio da força braçal.

 

 

 

 

 

 

 

Quando usar?

 

Bridão

Antes é importante saber que toda embocadura vai ter sua ação bem aplicada dependendo da do nível de equitação do cavaleiro.
Um bridão, por mais suave que seja, em mãos rápidas e pesadas, pode parecer ao cavalo, mais agressivo que uma mão treinada usando freio.
Os bridões, quanto mais finos, se tornam mais agressivos. Bridões torcidos, por exemplo, se tornam também mais agressivos que os lisos.
Bridões tipo argola com bocal liso trabalham de forma mais suave na boca do cavalo. Os bridões tipo D são um pouco mais incisivos.
Os bridões trabalham na comissura dos lábios do cavalo. Quando associados à técnica, onde os cavalos são reunidos e leves de frente, é possível executar  quaisquer manobras de rédeas, por exemplo.
O bridão deve ser a primeira embocadura a ser usada em um potro por ser bem menos agressivo que um freio e por permitir que os efeitos de rédea sejam transmitidos de forma mais branda ao animal que está em aprendizado.

Freio bridão

O freio bridão, como o próprio nome indica, é um intermediário. Por ter pernas ele trabalha também na mesa da arcada dentária.

 

Freio

Todo freio trabalha na mesa da arcada dentária inferior e dependendo de seu formato ele pode trabalhar de forma mais ou menos incisiva na mesa, comissura e no palato do cavalo.
Chega a ser contraditório, mas “um cavalo vai ficando pronto para receber um freio justamente quando menos precisa dele”.
Se o cavalo for bem escolarizado com o bridão e o cavaleiro for capaz de conseguir executar com ele, sem resistência alguma, todas as manobras ao bridão, então, ele já pode começar a pensar no uso do freio.
Um cavalo bem escolarizado, que recebeu uma boa iniciação e doma, feita por um cavaleiro capaz de equitar com técnica, “que monta com todo o corpo (pernas, tronco, mãos e voz), sensibilidade e equilíbrio, supostamente está treinado para responder a comandos básicos claros e precisos.
Mais adiante, ainda ao bridão ou já ao freio, o mesmo cavalo, se for montado por um cavaleiro neófito, que o confunda e não consiga estabelecer a mesma comunicação, o prejudicará, pois a embocadura faz parte de um todo e por si só jamais poderá suprir o baixo nível da equitação de um cavaleiro.
É por isso que BASE tem que ser UNIVERSAL, pois ao treinar um cavalo temos que fazê-lo pensando na possibilidade de que outros cavaleiros o montem futuramente, então, a linguagem tem que ser uma só.
De nada vai adiantar ficar trocando de embocadura para embocadura se o cavaleiro não souber como, quando usá-las e como treinar seu cavalo.
O uso do freio tem o objetivo de conseguir do conjunto cavalo x cavaleiro movimentos mais refinados e uma performance mais apurada, mas isso só vai acontecer se ambos já tiverem sido escolarizados, recebendo uma boa base, um bom alicerce, que os prepare para adiante executar tarefas mais técnicas.
Estou falando aqui de uma forma geral, pois quando pensamos em escolarizar um cavalo e preparar os alicerces para encaminhá-lo para alguma modalidade, temos que considerar técnicas de equitação básicas e que servem para qualquer animal, não importa se o cavalo é de vaquejada, enduro, salto, três tambores, laço, marcha, de fazenda ou o que for. Uma base bem feita é universal e está relacionada a cavalos e não a modalidades.

Agressividade do freio

Deixando de fora o fator humano, do ponto de vista construtivo, basicamente, essa agressividade é regulada por três requisitos:
- Comprimento da perna – quanto mais comprida, mais agressivo é o freio.
- Formato e tamanho do segmento que vai à  boca, do ômega, e do segmento que o complementa.
- Espessura e superfície do material – quanto mais fino mais agressivo. Qualquer artifício que deixe o material rugoso, serrilhado, ondulado, ou coisa parecida, o tornará também mais agressivo por causa do atrito.

 

Matéria prima

Hoje em dia são comuns embocaduras cem por cento fabricadas em aço inox. Isso não é recomendável.
É necessário que o animal esteja constantemente salivando para lubrificar a embocadura dentro da boca e o aço inox não proporciona esta salivação de forma satisfatória.
Quando a embocadura é fabricada em aço inox, no mínimo, é necessário que tenha incrustações ou detalhes em ferro ou cobre para incentivar a salivação.
Embocaduras de ferro executam melhor esse papel sem a necessidade de outros artifícios.
Existem no mercado, por exemplo, embocaduras com as laterais em inox e o segmento da boca em. São uma boa opção.

 

Barbelas

As barbelas são aquelas correinhas que vão por baixo do queixo, de um lado ao outro, fixadas nas duas extremidades das argolas dos bridões ou freios.
Podem ser de couro, sintéticas ou metálicas (correntes), como a do modelo acima.
Um freio, por exemplo, quando sem barbela, fica com parte do seu efeito nulo, pois a mesma funciona como ponto de apoio para o movimento de alavanca no acionamento das rédeas.
No caso dos bridões, a barbela estabiliza o mesmo e evita que a argola lateral seja puxada para dentro da boca do cavalo.

 

Conclusão

Para formar um bom conjunto, cavaleiro, cavalo e arreios têm que estar em sintonia. Trocar constantemente de embocadura para se obter o controle do cavalo pode ser em muitos casos reflexo da deficiência em outras áreas, pois como já foi exemplificado, na ausência de técnica... mais ferro.
Para escolher uma embocadura é necessário verificar as particularidades do animal e procurar uma que se ajuste bem.
O cavaleiro que pensa que o controle do cavalo está somente na boca (ou na cabeça), vai trocar constantemente de embocadura, procurando suprir a necessidade de controle e aperfeiçoamento da performance que deveria estar baseada em vários outros fatores.
Por isso é necessário que os cavaleiros estejam aptos a iniciar e treinar seus, escolarizando suas montarias com exercícios de flexionamento, reunião, engajamento, controles de velocidade, efeitos de rédea, galopes na mão certa, esbarros, spins, roll-backs, etc, etc, e etc.
Entender como funcionam os membros, transferência de peso, onde deve estar o apoio, a propulsão, a perna, a espora, a ajuda... é básico e fundamental.  Sem isso as embocaduras são ferramentas incompletas.
O passo é o ritmo mais propício para se iniciar a escolarização do cavaleiro e do cavalo, então, quando pensar em aprender sobre como equitar melhor, lembre-se disso e não vá pulando etapas que são básicas e fazem parte da seqüência.
Para fazer o uso correto das embocaduras é necessário antes saber equitar para então fazer das embocaduras apenas um detalhe importante no todo.
Sempre sabemos menos que alguns e mais que outros, então, procurar bons cursos e professores que nos ajudem a melhorar como “pessoas do cavalo” é necessário e fundamental.
Ao montar seu cavalo, na dúvida sobre qual embocadura usar, uma vez tendo controle, use a mais leve e branda possível.
Se por ventura usar algo para o qual sua mão e equitação não estejam preparadas poderá estar desperdiçando a sensibilidade que a boca do seu cavalo precisará mais adiante.

Importante: os modelos mostrados e citados aqui são ilustrativos. Existem centenas de ferramentas que trabalham de formas diferenciadas. Algumas são verdadeiras ferramentas de tortura e quando usadas, pressupõe-se, por lógica, que tem a finalidade de “substituir” a falta de técnica e conhecimento do cavaleiro.  No entanto, o conhecimento e a técnica não podem ser substituídos pela força bruta, pois o resultado final destas duas linhas totalmente distintas de trabalho é bem diferente. Onde há técnica e comunicação, com conhecimento e confiança entre cavaleiro e cavalo, se chega a resultados expressivos, com a saúde mental e física do animal preservada e com potencial melhor aproveitado.

 

Julio Nottingham
(85) 8805 1132
Iniciação de potros; Doma; Rédeas;
Vaquejada; Casq. e Ferrageamento;
Baias; Treinamento; Consultorias;
Cursos; Eventos.
Coord. Universidade do Cavalo / Ceará
julio@mundodocavalo.com.br
www.mundodocavalo.com.br

 

Doma e Horsemanship – Julio Nottingham

Indice

Quando se fala em doma temos que considerar as fases iniciais da vida do cavalo até seu encaminhamento para modalidade a que se destina.
O que ilustra a mente da maioria dos cavaleiros e pessoas comuns em primeira instância, é que doma se trata de um período do treinamento onde se subjuga o animal fazendo-o aceitar a sela e o cavaleiro sobre ele até que não ofereça mais resistência.
Na verdade doma é muito mais que isso.
Temos que pensar neste assunto desde o nascimento do potro quando ainda ao pé da mãe ele terá as primeiras experiências de relacionamento com o ser humano.
Relacionamento? Isso mesmo, relacionamento.
Essa palavra nos dá a idéia de quê? Pancadaria, força bruta, cortes de espora? Não. O que nos vem à mente é justamente o contrário. Pensamos em descoberta, aceitação, aprendizado e outros predicados que somente um relacionamento saudável pode oferecer.
Cavalo nenhum vai desenvolver todo o seu potencial dentro de um ambiente onde a tônica seja o medo. Podemos obrigá-los a fazer praticamente tudo, mas que mérito temos quando, usando de métodos brutais obrigamos o cavalo por meio de tortura física e mental? Mérito nenhum.
Conhecimento, técnica, refinamento e bom senso não são ferramentas puramente filosóficas no mundo do cavalo.
Todo e qualquer cavaleiro que ignorar esta realidade, em questão de tempo, se tornará ultrapassado, seja como profissional, esportista, proprietário ou criador.
Existe um mercado que gira em torno do mundo do cavalo e como qualquer outro ramo, evolui constantemente.
Acompanhando esta realidade, nos quatro cantos do planeta treinadores e cavaleiros vem falando e praticando o “Horsemanship”.
Horsemanship significa: Cavalo – homem – relacionamento.
Organizando temos: relacionamento entre homem e cavalo.
A prática do “bom horsemanship” nos leva a compreender e aprender melhor sobre o comportamento dos cavalos, utilizando os instintos deles a nosso favor e a favor deles próprios.
Horsemanship é algo que será praticado por toda a vida do cavalo e do homem e sendo assim, Doma e Horsemanship estão diretamente ligados.
Como eu já disse, doma é muito mais que subjugar o cavalo e forçar-lhe a aceitar o cavaleiro sobre si.
Doma envolve desde o cabresteamento, passando pela fase de ganho de confiança, dessensibilização, trabalho de chão, arreamento, montaria, situações e exercícios que serão preparatórios para que o cavalo possa seguir depois para a função a que se destina.
Horsemanship e doma se cruzam todo o tempo se considerarmos que a filosofia do “Bom Horsemanship” nos desafia ao aprofundamento em conhecimento sobre a personalidade e comportamento do cavalo e, uma vez praticando isso, a doma, assim como outras etapas de preparação e treinamento, se tornam mais simples, seguras, produtivas e rápidas – sem, no entanto, que isso signifique pressa.
Então horsemanship não é doma? NÃO!
Horsemanship é uma filosofia de trabalho onde adentramos o mundo do cavalo, descobrindo como eles se comunicam, como se organizam, como definem sua hierarquia, como reagem ou respondem às nossas atitudes e respeitando e entendendo seus instintos buscamos potencializar isso a favor da convivência ente Homem e Cavalo.
O Bom Horsemanship será praticado desde o nascimento do potro até o dia de sua morte, em todas as fases em que cavalo e homem estejam em contato.
No simples ato de colocar um cabresto ou em um treinamento mais avançado o Horsemanhip estará sendo praticado, desde que o cavaleiro, tenha consciência do seu papel e atuação em relação ao cavalo. Aí está a diferença entre o Bom e o “mau horsemanship”.

O Bom Horsemanship põe de lado a violência, a doma antiga, comum, citada por alguns como “doma bruta”, a doma racional engessada, bem como outros meios ultrapassados.
No entanto, não podemos confundir isso com atitudes permissivas, desorientadas e sem limites saudáveis.
É comum vermos cavaleiros tratando seus cavalos como se fossem gente ou “poodles”.
Na convivência e no treinamento de cavalos estas atitudes os tornarão como um adolescente que cresceu desorientado, sem noções de limite e com sérios problemas de comportamento.
O Bom Horsemanship deve nos levar a um equilíbrio onde saibamos ser firmes quando necessário mas sem sermos ásperos, raivosos e violentos.

Em geral, cavaleiros que não conhecem e não praticam o Bom Horsemanship, por seus próprios erros, punem constantemente seus cavalos.
É necessário que sejamos humildes para reconhecer que nós somos os causadores da maioria dos problemas dos cavalos e quando não conseguimos atingir um objetivo é porque não fomos suficientemente competentes em comunicar a eles onde queremos chegar. Provavelmente não respeitamos também o tempo certo para cada fase de aprendizado.
Talvez o maior desafio seja reconhecer que o sucesso de cada empreitada depende de conhecermos os cavalos e a nós mesmos com tal profundidade (sendo francos e transparentes com nós mesmos, com os cavalos e com outras pessoas), que possamos comunicar de forma clara, no nível do cavalo, onde pretendemos chegar com ele. Se fizermos isso tudo será possível.
Se formos humildes o suficiente - e isso é um pré-requisito básico - compreenderemos que nós somos alunos tanto quanto eles. Eles já nascem sabendo tudo que queremos ensinar.
O segredo é conseguir que eles façam juntamente conosco.

Então, não só a doma, como toda a base e demais etapas do treinamento, quando praticadas segundo o Bom Horsemanship nos levará, sem dúvida alguma, juntamente com nossas montarias, a níveis de entrosamento e performance antes não experimentados.

Julio Nottingham

 

O Redondel


Indice

Texto de Eduardo Borbawww.doma.com.br

É um curral redondo com 2,5m de altura, com 15 a 17 metros de diâmetro. Pode ser construído de muitas maneiras. A mais comum é aquela feita de madeira sólida, sem vãos até pelo menos 1,20m e acima dessa medida os vãos não podem caber a cabeça do cavalo. A ultima tabua deve ser colocada bem rente à cabeça do moirão, por que quando se trabalha com o laço, pode acontecer de se laçar o cavalo e a ponta do moirão causando assim um acidente para nós e para o cavalo.

Espaço suficiente para ele expressar o instinto de auto preservação mas, também deixa claro ao cavalo que não existe a menor possibilidade de sair dali.
Na maior parte do tempo ele fica vazio, nada acontece até que alguém leve um cavalo para dentro dele.
É fundamental que os predados não se sintam acuados e possam se proteger movimentando as patas para onde quiserem.
O Redondel garante a dignidade da relação, se me aproximo pela sua direita e ele desconfia da existência de algum perigo, ele tem a esquerda para  escapar; e vice versa. E se não escapar é por que decidiu ficar. Assim, vai ficando cada vez mais claro para ele que o lugar mais seguro é perto de mim. Acredito que essa experiência é da maior importância para a Relação Homem-Cavalo.
Outro aspecto importante do Redondel é que posso manter o cavalo perto de mim o suficiente, para que a interação possa acontecer. O que é muito diferente de um curral ou piquete maior, onde ele possa simplesmente sair correndo e só vai parar quando há uma distancia que lhe der segurança. Nesse caso a interação fica muito mais difícil, por que “fligth zone” (zona de fuga) está acima dos 10 m.
Essas são as razoes que fazem do Redondel a principal sala de aula do cavalo. Talvez, uma pequena versão do Planeta Terra. Dentro dele  cavalo e ser humano tentam perceber como fazer para que um possa fazer parte no mundo do outro. Tudo depende de infinitas  variáveis. A maior parte das vezes o trabalho lá dentro é feito a pé usando um cabo de cabresto ou mesmo um laço, mas muitas vezes se faz esse mesmo trabalho montado em outro cavalo. Parece tudo muito simples, mas não é tão simples assim. 

Na verdade, o Redondel é um grande quebra cabeças por que é para lá que você vai para iniciar a construção da sua relação com o seu cavalo e é para lá que você não vai mais para continuar o treino do seu cavalo. A dificuldade é definir a linha que existe entre fazer muito e fazer muito pouco, não é muito fácil perceber o que o nosso cavalo está tentando nos dizer que já sabe.

Redondel 2

 

é respeitar o cavalo, compreendendo e lhe assegurando a necessidade básica do Instinto de Auto Preservação, dando-lhe a vantagem de poder escapar quando sentir necessidade.
Acredito ser o  Redondel  o lugar mais adequado para se Iniciar um Potro.  Por que ali ele pode se expressar, mostrando como está se sentindo.

O que é muito diferente do Convencional Palanque, e todas as suas variações, que faz com que ele se sinta com se estivesse num beco sem saída. Nessa medida, se ele precisar se defender ou se proteger,  pode se machucar e também machucar as pessoas que estiverem perto.
A razão de se usar um Redondel é por que ele não tem cantos. Dessa forma o cavalo pode expressar todo o seu instinto de auto preservação escapando. É fundamental que os predados não se sintam acuados e possam se proteger movimentando as patas para onde quiserem.
Quando inicio a dessensibilização das áreas vulneráveis, procuro não acordar o seu instinto de autopreservação. Mas, num primeiro instante ele pode até pensar que precisa se proteger para continuar vivo. No Redondel ele tem uma saída, tem para onde ir movimentando suas patas.
Mas conforme o tempo vai passando e a interação acontecendo ele começa a perceber que aquilo que parecia uma ameaça já não é tanto quanto parecia ser. Assim, vai ficando mais seguro, tranqüilo, relaxado e principalmente compreendendo que o melhor lugar é perto de mim.
Um outro exemplo de como o Redondel pode dar dignidade para a relação, é quando me aproximo pela sua direita, e ele desconfia da existência de algum perigo, ele tem a esquerda para  escapar; se me aproximo pela sua esquerda, a sua direita está livre para escapar, caso sinta necessidade. E se não escapar é por que decidiu ficar. Acredito  que essa experiência é da maior importância para a vida futura do potro como cavalo de sela.
Outro aspecto importante do Redondel é que posso mantê-lo perto de mim o suficiente, para que a interação possa acontecer, quando estou trabalhando. Esses são, no meu entender,  os maiores significados do Redondel.

Por Eduardo Borba, Inspirado no Livro Straight West - Fotografia Lindy Smith e Texto de Verlyn Klinkenborg,

Visite o site: www.doma.com.br

 

Pensando Cavalo

Indice

Por: Jose Eduardo Pacheco Borba

        O livro, Horses and Horsemanship, escrito por M.E.Esminger, professor da Universidade Estatal de Wisconsin, E.U.A., diz que existem fósseis de uma família de eqüinos que data da Era Terciária, ou seja, o cavalo existe acerca de 58 milhões de anos.
    Isso me faz pensar que este animal é um vencedor porque, sendo "predado", teve que desenvolver um sistema de auto-preservação extremamente sofisticado para sobreviver até os nossos dias.
Portanto, quando empina, corcoveia, manoteia, empaca, escoiceia, morde, dispara, assusta-se com os mais inusitados objetos, quer apenas salvar sua vida.
    Muita gente pensa que, pelo fato de ele hoje, na maioria das vezes, ser criado e manejado em haras e fazendas, a partir de técnicas específicas de criação profissional, tenha perdido esse instinto de auto preservação, o que não é verdade; esse instinto é uma demanda arquetípica. Penso que com as pessoas acontece de forma semelhante.
    Historicamente, o cavalo faz parte da vida do homem há 5000 anos. Quando este o montou pela primeira vez, não havia ninguém para lhe servir de modelo. Deve ter aprendido a partir das suas próprias observações; foi lhe necessário estudá-lo, ou seja, perceber como ele operava física, mental e emocionalmente. Não sei como se deu esse primeiro encontro. Talvez tenha encontrado um potro cuja mãe tenha sido morta por algum predador e resolveu criá-lo. De qualquer modo, ganhou sua confiança. Em seguida, pensou que pudesse montá-lo e, ao fazê-lo, deve ter se sentido muito mais poderoso - o que certamente lhe provocou uma emoção muito forte - uma vez que poderia saltar mais alto e correr mais rápido do que fazia antes; deve ter sentido como se o cavalo fosse a sua própria extensão. Nesta interação constatou que o cavalo foi seu primeiro professor, e assim é; o cavalo é o nosso melhor professor.
    Xenofontes, um general grego, escreveu há mais de 24 séculos um livro intitulado: "A ARTE DO HORSEMANSHIP". Esta obra consta da maioria das bibliografias sobre estudos a respeito do manejo, maneiras de montar e disciplinar cavalos. Todos os autores que o conhecem são unânimes em dizer que o livro é de uma clareza ímpar no que se refere ao conhecimento sobre cavalo. 
    Sua postura implicava no respeito, na segurança, no conforto e na compreensão do animal, quando em treinamento. Ele diz: - "Nada forçado e sem compreensão pode ser belo". - "Os potros devem ser treinados de tal maneira que não só gostem de seus cavaleiros, mas que também estejam esperando ansiosamente por eles no dia seguinte". Não sei o que aconteceu no curso da história para que essa postura tenha sido abandonada e substituída por aquelas de confronto e intimidação, abusando do chicote e da espora para discipliná-los .
    Em todos os meus artigos, tenho falado insistentemente que a maioria das pessoas não observa que o cavalo é um animal "predado" e, por isso, a necessidade do instinto de auto- preservação. Portanto, quando se lida com esses animais, não levar em consideração esse fato é trombar de frente com eles.
    O cavalo não responde àquilo que estamos pedindo, por três razões básicas: por não compreender, por estar confuso ou, ainda, por não ter lhe sido ensinado. Se não levarmos em conta esses fatores, estaremos procurando briga e, com certeza, vamos encontrar, com a agravante de que sempre vamos sair perdendo, pela razão mais óbvia: ele é mais forte que nós. O que devemos fazer é lhe dar tempo para que possa aprender e compreender o que estamos pedindo. Não há atalhos e a única mágica que existe somos nós e o nosso cavalo, ajustando-nos a cada situação que aparece, procurando Sentir o seu Timing a fim de que possamos ter uma relação mais Equilibrada, e com isso conseguirmos uma posição mais adequada de onde ele possa começar melhor.
    Nos meus 26 anos de atividade, tenho ouvido muitas pessoas dizerem que, se não quebrarmos o Espírito do cavalo, ele vai ficar com o Pulo escondido e que mais dia menos dia esse Pulo vai aparecer. A meu ver, o Espírito talvez seja a parte mais importante do cavalo e o que mais quero é construir esse Espírito, porque só assim vou poder utilizá-lo.
    O cavalo tem uma psicologia própria que controla seu corpo, ou seja, suas pernas e seus pés. Observo as pessoas lidando com eles, não levando em conta que essa necessidade básica de auto-preservação faz parte de seu mundo, portanto, pensam, são sensíveis e tomam decisões, assim como nós. 
    Sinto que o problema todo reside na necessidade de reconhecermos o antagonismo entre as duas naturezas. Sendo o homem predador e o cavalo "predado", fica evidente que somos biologicamente antagônicos. 
    Nosso trabalho é garantir a ele que pode conservar seu instinto de auto preservação e ainda responder ao que lhe estamos pedindo. Isto será muito útil, tanto para nós como para o cavalo.
    Minha maior preocupação, quando estou iniciando um potro, é lhe deixar o mais claro possível que não precisa ter medo nem se proteger. Gosto de dar-lhe tempo para compreender o que quero dele. Às vezes, ir devagar é o jeito mais rápido de se chegar a algum lugar. Não quero, de maneira nenhuma, assustá-lo. Se ele ficar com medo de mim, na próxima sessão estará também com medo, pois estará esperando por isso, assim que me vir.
    Aplicar uma pressão inadequada, quer dizer, apressar o programa de treinamento por qualquer razão, obrigá-lo a trabalhar até o cansaço extremo, não lhe dando o Tempo necessário para que possa compreender o que espero dele vai despertar seu instinto de autopreservação, o que ele tem de mais forte, gerando confusão e, conseqüentemente, rebeldia.
    O cavalo é um ser naturalmente liderado, portanto, nosso trabalho é liderá-lo da mesma forma que um cavalo faz para controlar outro. Pensar que com açúcar e cenoura vamos conseguir lhe colocar sela e fazê-lo trabalhar para nós é pura ilusão Waltdisneyana. Ele vai nos testar em nível de nossa capacidade de liderança, muitas vezes em situações realmente difíceis. Temos que provar que não somos predadores, mas sim líderes, preparando-nos para as situações que ele vai nos criar, antecipando-as, sem lhe causar susto, medo ou dor, situações que lhe permitam tomar decisões corretas em relação a nós. Por exemplo, no trabalho de redondel,a atitude é incorreta é quando ele pára com a cara virada para a cerca, o que significa que vai trabalhar (galopar) mais. A atitude correta é quando pára com a cara virada para o seu treinador; então, a pressão deve ser aliviada imediatamente, permitindo que descanse e perceba que é isso que se espera dele. Assim, estaremos trabalhando através da sua mente.
    Quando aprendemos a fazer uma leitura do cavalo através da observação de suas expressões, crescem nossas possibilidades de comunicação. O que dizem suas orelhas, seus olhos, sua boca? Suas ações também vão nos dizer o que está acontecendo: quando está compreendendo ou quando não está, quando está com medo ou quando está agressivo. Interpretar o nível de aceitação representado por essas atitudes é o nosso Gol. Aprender a ler o cavalo é aprender uma linguagem nova é a comunicação através da sensibilidade, e isso só se consegue com a mente aberta. De nada adianta uma atitude arbitrária, opressiva, como se fôssemos superior a ele. 
    Temos de permitir que ele aprenda. Por exemplo: quando quero ensinar meu cavalo a virar a cabeça para a direita, encurto a rédea direita; assim que percebo a menor tentativa de ele me dar a cabeça, alivio a pressão. Rapidamente ele compreenderá, porque estará procurando por aquele ponto (alívio da pressão), e assim estarei dando-lhe uma razão, um significado para fazer aquilo.
    Existem pessoas que chamam esse procedimento de Doma Racional. Prefiro chama-lo "Doma" "D inâmica O rganizada m ovimento a destrado". Tenho que ter muita Doma para que possa pôr Doma no meu cavalo; a atitude "Doma" é responsabildade mútua.
    Nunca sei o que vou fazer quando chego perto de um cavalo pela primeira vez. É ele que vai me dizer o que fazer e como fazer. Quero estar conectado com ele e poder dar-lhe o Tempo que precisar para que me compreenda. Procuro um entendimento de parceria, não estou interessado em escravidão. Quero a interação mais profunda possível naquilo que eu e ele estamos nos propondo a fazer juntos. 

FONTE:
José Eduardo Pacheco Borba

 

Tom Dorrance

Indice

sob a ótica de “Jonh Salomon”

Trinta ou mais cavalos chucros andavam agitados pelo imenso curral da Cow Comp, a sede de verão do Flying D Ranch, em Montana.
O gerente Boots Shell, enquanto laçava um deles, perguntou a um homem baixinho, de cabelos escuros, qual o tipo de cavalo que ele gostaria de montar: “Alguma coisa que tenha sido pouco manejada, seria o melhor”, respondeu o baixinho. Os outros cowboys, que apenas tinham encontrado aquele quieto “horseman” na noite anterior não acreditavam no que estavam ouvindo. Era o verão de 1964, e Tom Dorrance já estava com 54 anos de idade.
Os animais variavam entre 5, 6 e 7 anos de idade e, por uma razão ou outra, nunca tinham sido domados. Eram uma mistura de bons PSI e bons QM, tendo passado a maior parte de suas vidas pastando naquele rancho de milhares de acres; vinham para o curral uma ou duas vezes por ano, e em seguida eram soltos outra vez, sem serem mexidos. Vários tinham sido “domados”; alguém tentou fazer isso, mas sem sucesso.
Tom laçou um alazão tostado de 6 anos, que havia derrubado a única pessoa que tentou montá-lo, e trabalhou-o do chão. Sam Spring, o capataz, disse: “Não sei o que ele fez. Num espaço de tempo muito curto, ele estava recuando o cavalo já encilhado num canto da cerca. Montou-o fora do curral. Sei que a coisa inteira não demorou mais que meia hora. No outro dia, o alazão tostado estava na tropa de serviço e Tom montou-o para pegar outros potros”. Algumas manhãs depois, Tom laçou um baio de 8 anos que só havia sido pego para ser castrado e marcado quando ainda era um potro de sobre ano. Quando o montou, o cavalo não se mexeu, ficou estacado no chão e assim ficaram ali. Qualquer outra pessoa teria usado um chicote até que o cavalo se movimentasse, mas Tom esperou. “Isso pode levar um bom tempo”, brincou. “Talvez algum de vocês tenham que me trazer o jantar”.
Ele parecia saber que as coisas estavam para mudar. “Está com medo; quando começar não vai corcovear, vai correr”, disse ele, com segurança do que estava acontecendo, alguns minutos mais tarde, balançou na sela, mudando o peso nos estribos. O baio tirou uma das patas do chão para não perder o equilíbrio, descobrindo assim que podia movimentar-se, rompendo com uma bala saída do cano de um revólver. Enquanto desembestava por aquele imenso curral Tom ficou na sela o mais quieto possível, não ajustou as rédeas em momento algum. Somente quando o cavalo diminuiu a velocidade, num dos cantos do curral, é que ele levantou uma das rédeas, mais ou menos dirigindo-o na curva. Alguns minutos depois, estava montando-o junto com os outros cowboys.
Naquele verão, cavalos como esse foram montados por Tom no Flying D Ranch. São animais bem diferentes daqueles criados em haras ou em fundo do quintal, manejados desde o nascimento. Cavalos de rodeio são mais fáceis de se aproximar pela simples razão de serem mais previsíveis para alguém que saiba o quão forte e incontrolável pode ser um cavalo desse tipo. O que Tom estava fazendo parecia quase mágica.
Esses exemplos demonstram o quanto o “approach” de Tom Dorrance pode ser bem sucedido. Os princípios que norteiam relacionamento com um cavalo, não importando o quão dócil o animal possa ser.
Esse artigo é sobre Tom Dorrance e seu “approach” na Interação-Integração Homem-Cavalo e, mais especificamente, sobre Tom e eu. Conhece-lo e compreendê-lo – em qualquer grau – é uma grande experiência pessoal. O abismo que há entre o que ele conhece e nos comunica, e nosso referencial sobre cavalos é realmente imenso, não se pode medir a gritos. Tentamos preencher essa lacuna da melhor maneira possível. O que estou dizendo a respeito do que Tom é e o que ele significa é uma interpretação minha, é a minha experiência pessoal junto dele.
Embora jamais tenha apresentado um cavalo num campeonato mundial, Tom está entre os maiores “Horsemen” do mundo – alguém poderia dizer - “O Maior”, “O Mestre dos Mestres” - por duas razões. Primeira, ele consegue com que o cavalo queira fazer qualquer coisa que seja capaz de fazer. Segunda, foi ele que iniciou a revolução da maneira como os cavalos são domados (iniciados) e treinados.
Ele não é evangelista, mas tem uma fala suave, própria de um Mestre. Seu aluno mais conhecido, Ray Hunt, divulgou o método por mais de 20 anos. Agora já existem a segunda e terceira gerações de seguidores, como Buck Brannaman, Brien Newbert, Joe Walters e outros, que ministram clínicas por todo o país. Greg Ward e Doug Jordan são dois treinadores que passaram algum tempo com Tom Dorrance. Nos dias de hoje, pessoas que nunca ouviram falar de Tom estão tentando fazer as coisas a sua maneira.
Ele não se parece nem atua com um mago (feiticeiro). Não é uma pessoa que emite grandes “flashes” de luz, seu trabalho não é propriamente um “show”. É amigo e quieto. De repente seu rosto emite uma expressão grave e, no minuto seguinte, transforma-se no rosto de uma criança, com um brilho maroto nos olhos, que parecem revelar uma satisfação com seu mundo interno. Estando agora na casa dos 85 anos, talvez esse comportamento tenha vindo com a idade, mas duvido que ele possa um dia ter sido pretensioso. Se alguma vez sentiu o ímpeto de impressionar pessoas, superou isso há muito tempo. Quando passamos algum tempo junto dele, sentimos confiança e satisfação interna e começamos a sentir a presença do “Gênio”. Rapidamente, convencemo-nos de que ele sabe algo que vale a pena saber – mas compreender exatamente o que é, é muito difícil. Seu conhecimento e sabedoria geralmente são indescritíveis, não é algo que possa ser dito, envolve muitas sutilezas. Temos de estar muito atentos para conseguir aprender o que ele tem para ensinar.
A maioria das coisas que Tom oferece têm que ser aprendidas pelo SENTIR. Ele pode nos guiar, mas temos que sentir as cosa por nós mesmos. Algumas vêem através de nossas mãos e do nosso corpo, mas a parte mais importante vem do mais fundo da nossa pessoa – é uma empatia e honestidade do coração. Tom entrelaça razão, reflexão e emoção no seu relacionamento com cavalos, e estou quase certo de que nunca procede exatamente da mesma forma. Sua abertura de pensamento é muito importante: os procedimentos usados em cada caso são apenas exemplos de aplicações específicas, são princípios gerais. Em certas ocasiões, Tom pode ver uma situação - que parece similar para nós – de uma maneira completamente diferente e responder de outra maneira, ainda, mais diferente. Infelizmente, esses princípios gerais podem ser um pouco obscuros para quem não esteja familiarizado com o que Tom está falando. De certa maneira ele nos mostra “o que procurar”, mas na maioria das vezes, temos que descobrir esses procedimentos por nós mesmos.
O “approach” mental de Tom parece tão importante quanto o físico; ele pensa e vê o que está acontecendo. Mas um outro aspecto, o emocional, pode ser ainda o mais importante. Para conseguirmos entender um pouco essa intimidade que Tom tem com os cavalos (que é o que faz com que o cavalo esteja disposto a querer fazer aquilo que lhe está sendo proposto), temos que abrir mão de nossas vontades, desejos e atitudes de superioridade diante do cavalo.
Jack Shell resumiu bem quando disse: “Tom é um homem sem ego”, o que tem muito a ver com seu sucesso com cavalos. Pouquíssimas pessoas estão livres do ego na extensão em que Tom está, mas mesmo o menor controle sobre nós mesmos traz bons resultados.
Nas clínicas, Tom parece trabalhar tão bem com cavalos quanto com as pessoas, mostrando extraordinária paciência com a ignorância de alguns, com as tentativas de outros, restringindo aqueles com tendência a se exibirem. “Sempre fui capaz de enxergar o melhor do cavalo, e quanto mais velho vou ficando, percebo que tenho conseguido ver o melhor nas pessoas também”.
Em geral, Tom faz três coisas para construir uma relação bem sucedida com cavalos. Primeiro: presta atenção. Por exemplo, ele está sempre consciente, o tempo todo, de como estão os pés, não só os do cavalo, mas os dele e o dos seus alunos também. Ele percebe os menores detalhes. Uma orelha em pé, outra virada para o cavaleiro ou dentes aparecendo contam para nós uma pequena história, mas Tom lê um grande livro; um músculo tenso ou mesmo um passo minúsculo podem determinar muitas situações. Ele passou 85 anos prestando atenção nisso, e lembra-se de tudo.
A segunda coisa – Tom vê o cavalo como seu igual. Para ele os cavalos têm os mesmos direitos que ele próprio – nem mais nem menos, apenas iguais. Ele lhes concede o respeito básico de ser.
Uma vez, ele pediu-me que fizesse alguma coisa com minha égua, dizendo “Não a insulte, só peça”. O tipo de respeito que Tom dá aos cavalos envolve o cuidado para evitar surpresas, e isso dá ao cavalo dignidade.
Tom espera do cavalo o mesmo respeito, faz o que for preciso para obtê-lo e é tão consciente do que faz o animal trabalhar que, normalmente, não precisa fazer muito para obter esse respeito.
Ele usa técnicas específicas para conseguir o que quer. Como muitos outros “horsemen” ensinam o cavalo a se movimentar a partir da pressão das pernas e pede para que as pessoas sigam os movimentos de seus cavalos a passo. Isso significa que cada uma das pernas do cavaleiro deve movimentar-se mais ou menos junto com os anteriores do cavalo. A maioria dos cavaleiros aperta muito os músculos das pernas e aumenta os movimentos desatentamente para conseguir um passo mais rápido. Certa vez, quando Tom estava ajudando-me, acho que deve ter acontecido alguma coisa parecida com isso, porque ele simplesmente disse: “Algumas vezes, peço para as pessoas montarem sem as pernas”. Deixei minhas pernas relaxadas e penduradas, elas continuaram a se movimentar suavemente a cada passo, mas agora sem a tensão muscular, já não havia exigência a partir da minha movimentação e também não havia pressão na égua, que começou a trabalhar melhor.
Quando questionado sobre como fazer alguma coisa com o cavalo de alguém, ele assume um ar sério e diz: “Bem, isso depende de uma porção de coisas”. Ele precisa de mais detalhes antes de responder. Às vezes, ele faz uma pergunta, induzindo a pessoa a fornecer detalhes, ou espera até que estes venham voluntariamente. Freqüentemente, oferece várias sugestões que possam ajudar.
Se você está tentando alguma coisa que não está funcionando, tem que voltar aos princípios básicos, em seguida tentar encontrar outra maneira que possa ajudá-lo a atingir seu objetivo. É isso que faz com que seu “approach” seja tão árduo para nós, pessoas comuns. Certa vez numa clínica, Tom disse: “Não posso lhe dar o equivalente a 85 anos de experiência nesta tarde”.
Em seu livro “True Unity”, que escreveu junto com Mylly Hunt Porter, ele fala de ”Feel, Time and Balance”, Metas e Respeito, mas não discorre sobre metas específicas. Ele sugere como conseguir alguma coisa, sem dizer exatamente o que fazer.
Quando ele, no seu livro refere-se à “Timing”, está falando daquele instante em que o cavalo vai fazer um movimento e daquele mesmo instante em que o cavaleiro deve ajudar o cavalo. Ele está se referindo a um princípio básico: “Apoiar e Preparar”, antes que o movimento aconteça.
Por exemplo: ele estava tentando fazer com que o cavaleiro acionasse as rédeas do bridão quando o cavalo estivesse com a “mão” daquele lado no ar, para que ficasse mais fácil ao cavalo se movimentar (desse o passo) na nova direção. Queria que o cavaleiro desse o sinal para o cavalo no instante que fosse mais fácil, para que ele fizesse aquilo que o cavalo estava querendo. Tom fez questão de mostrar ele mesmo, aquilo que estava falando, acionando a rédea, no momento em que a mudança estava acontecendo. O cavaleiro não estava acertando perfeitamente, mas acertava algumas vezes, naquilo que Tom chama de janela de oportunidades. Estava satisfeito porque o cavalo e o cavaleiro estavam fazendo progresso.
Ele comentava freqüentemente: “Quando seu Timing está errado, você está muito atrasado". Não vamos nos preocupar com isso para preparar a próxima vez ““.
Certa vez ele deixou-me ajudá-lo no trabalho com uma égua nervosa. Primeiro trotei e galopei para tirar o excesso de energia. “O cavalo primeiro, tem que desenvolver a confiança no ambiente, depois nele mesmo e depois no seu cavaleiro”, explicou Tom. A égua não corcoveou, mas queria correr muito, balançava a cabeça e mascava o bridão. Tentei mudar o jeito que manejava as rédeas, mas ela continua igual, não se importando com nada que viesse a fazer, ao nível de ajuste das rédeas ou de acomodação do meu corpo em cima dela.
Sob a direção de Tom, andamos ao passo, e realmente gastamos mais de uma hora com isso, conversando e trabalhando: passo e paradas. Quando estava dirigindo-me ao centro da arena, Tom pediu: “Agora pare, suas mãos pareciam dizer, faça isso com calma e devagar”.
Parei de empurrá-la com as pernas, ajustei as rédeas e esperei. Logo que ela parou, imediatamente aliviei a leve pressão que tinha nas rédeas. Assim que repetíamos o exercício, a égua respondia mais e mais prontamente a uma leve pressão, e eu aliviada ainda mais, para manter a suavidade das transições.
Cada parada significava que eu tinha uma nova transição. A partir de uma parada, teria que partir ao passo e Tom falava, em detalhes tão particulares, sobre o quanto eu deveria ser educado, de como deveriam ser minhas maneiras, nas paradas e partidas, como nunca havia ouvido antes.
Primeiro deveria manter um determinado contato para mantê-la parada, até que Tom pedisse que partíssemos ao passo. Tive que manter uma determinada pressão, para que ela não partisse muito rápido, depois de um tempo Tom disse: “Abra um pouquinho mais para ela”. Movimentei minhas mãos um pouco rápido demais, enquanto pedia que partisse. Mais tarde, Tom diria: “Você está abrindo demais”. O nível de apoio de que ela necessitava tinha mudado, mas eu não tinha percebido. Gradualmente, a égua e eu fomos ficando cada vez mais sincronizados. Tom ajudou-me na atenção com minhas mãos para que elas não reagissem tão depressa, o que fez com que a égua desenvolvesse uma verdadeira confiança. Dessa forma passou a acreditar que eu não a surpreenderia nem a machucaria. Assim que a confiança foi desenvolvida (cresceu), ela conseguiu trabalhar mais relaxada e eu também. “Veja agora, há pouco tempo atrás, tudo que você tinha que fazer era dar-lhe permissão para partir, e agora ela espera você pedir que ela parta”, disse Tom.
No meio de tudo isso ela parou de mascar o bridão e balançar a cabeça para baixo e para cima. Aparentemente essas coisas tinham sido sintomas de um problema mais profundo. Era realmente um problema de confiança. Sua estratégia de autodefesa tinha sido controlar o bridão e a velocidade.
Depois da série de exercícios, que foi feita ao passo, é que veio a compreensão. Tom sugeriu que tentássemos uma mudança de mãos ao galope. Surpreendentemente a “Integração” não foi abalada quando aumentamos a velocidade.
Apesar de essa égua nunca ter feito uma mudança de mãos ao galope, quando lhe dei a abertura para mudar – apoiando-a com minhas pernas e mãos quietas – ela mudou. A primeira mudança foi meio desajeitada, mas a segunda e a terceira foram dentro de um quadro harmônico. “É uma tremenda responsabilidade ser cavaleiro ou treinador”, disse Tom. “Não exponha seu cavalo a situações em que ele possa perder isso (confiança) que acabou de conseguir”.
Uma das marcas registradas de Tom é um pedaço de pano ou um pedaço de plástico na ponta de um chicote de adestramento clássico (1,5 m + ou -), uma ferramenta que faz com que seu braço fique mais longo e mais perceptível ao cavalo. Usa essa ferramenta para encorajar o cavalo a se movimentar ou mesmo virar para uma nova direção. Algumas pessoas pensam que essa bandeira é a mágica. “Não há nada de mágico na bandeira, é só mais uma maneira que tenho para comunicar minhas intenções ao cavalo”, disse Tom. É como a bandeira vai ser usada que é importante, não ela em si.
Tom consegue muito, num pequeno espaço de tempo, mas ele nunca apressa o processo por nenhuma razão. Muitas vezes ir devagar é o jeito mais rápido de se chegar lá. Se a sua meta é conseguir que o cavalo faça um movimento lateral da esquerda para a direita, Tom agrada ao cavalo quando ele transfere o peso para a esquerda, aliviando (preparando) a direita para sair. Esse é o primeiro de uma série de movimentos que vai construir o movimento lateral desejado. Ele constrói um alicerce a partir do menor sinal do cavalo.
Ele fala muito do movimento das pernas e dos pés dos cavalos. “Se você tem o controle dos pés e das pernas, o resto vem muito mais fácil. Se você está tentando com que o cavalo faça alguma coisa, prepare-o antes para que ele tenha um ponto de partida. Se você tiver paciência para prepará-lo, conseguirá perceber uma porção de coisas” acrescenta Tom. “Quando o processo é o aprendizado, e não um processo apreensivo, no qual o medo seja a tônica, os resultados não são tão demorados”.

 

Sobre a motivação do cavalo


Indice

Cavalier

No problema da motivação do cavalo torna-se difícil de obter consenso, ao meu ver, por dois motivos: primeiro que ninguém garante que a motivação do cavalo seja o que entendemos como "motivação”. Então ficamos falando de uma coisa segundo a interpretação humana do predicado, quando pode ser que a coisa na psique do cavalo ocorra de maneira bem diferente.
Mas como humanos que somos não podemos fugir da nossa maneira de querer entender a "motivação".
Segundo é o fato de que a maioria dos itens levantados como causa, nesse assunto, na verdade são condições indispensáveis ao cavalo (alimentação, preparo físico, saúde, adestramento, etc). Seriam "condições" para um cavalo poder trabalhar.
A "motivação" deveria ser buscada como qualquer coisa a ser definida depois de todas estas condições estarem atendidas, ou mesmo antes delas. Elas ainda não seriam a real conotação subjetiva da "motivação".
Veja você que a coisa não é tão simples. Como fazer uma pessoa querer trabalhar?
Mesmo sob condições iguais de salário, preparo profissional e saúde, certamente uma delas apresentará maior disposição, maior devoção, podendo mesmo até chegar a criar novos métodos para a resolução de uma tarefa...
Considerando tudo igual, inclusive o ambiente de criação (gêmeos) e ainda que todos os estímulos afetivos tivessem sido idênticos, haverá diferenças no entusiasmo para a resolução de tarefas.
De onde vem esta chama interna que diferencia um do outro? Seria o metabolismo próprio?
Então, a partir da comparação humana, poderíamos constatar que, a priori, já existiria uma predisposição a mais para o “trabalho" num tipo de indivíduo (por que é assim que ele é).
Um cavalo não faz previsões a longo prazo. Sua mente atende a uma certa quantidade de atrações definidas e imediatas (pelas quais ele é realmente "tentado") e procura distância de uma série de "aversões", podendo mesmo ter pavor de algumas.
Mesmo em uma época em que não se dava a este assunto (motivação) muita atenção, os cavaleiros já diferenciavam alguns cavalos de outros cavalos, geralmente pela palavra "sério".
Dizia-se: esse cavalo é muito sério ou tal cavalo trabalha com muita seriedade.
A palavra "seriedade” era a maneira que o cavaleiro encontrara para externar sua admiração pela atenção, concentração e vontade com que o cavalo trabalhava. Veja que se dizia (sou testemunha, pois eu mesmo usei - ou ainda uso - esta palavra) que o cavalo é sério.
Não se dizia que o cavalo está ou esteve sério no trabalho de hoje. Ser sério já seria uma qualidade constante do cavalo, desde o amansamento, aparentando estar concentrado no que se ensina, prestando atenção ao cavaleiro, como quem estivesse "motivado”... palavra que o vocabulário humano da época, em seu antropomorfismo, chamou de "cavalo sério". Esse é o cavalo"naturalmente motivado"que aparenta gostar do trabalho. Isso é dele mesmo.
Quando o cavalo (sério) demonstra sua boa vontade, crescendo em motivada impulsão para a barreira que lhe é apresentada (por exemplo) e a saltando, esta "qualidade" será chamada de "franqueza”.
O cavalo franco dá a impressão de estar motivado, segundo aquilo que entendemos como motivação.
Um cavalo desta natureza ("motivado” por índole) quando ao trote nos dá a impressão (humana) de estar prestando atenção ao seu próprio trote e atento ao cavaleiro, posto que basta falarmos alguma coisa que logo as orelhas se voltam para nós. Não se dispersa muito pelos estímulos exteriores do ambiente circunjacente (seja na pista ou no campo), parecendo não ter tempo para estas coisas (a menos naturalmente, que um grande estímulo ou uma atração muito viva venha quebrar esta "seriedade").
Neste cavalo o nosso trabalho será o de manter a “motivação" já existente por natureza. A melhor forma de fazê-lo é jamais permanecer muito tempo no mesmo exercício. A novidade que lhe é apresentada tem o poder de, por si só, propiciar uma quebra da atenção anterior e iniciar um novo processo de atenção sobre a tarefa de agora. . .
A razão disso é que os estímulos exteriores que atraem a atenção do cavalo são mais poderosos do que os estímulos que o cavaleiro usa para dizer "estou presente". Durante o trabalho o cavalo se comunica com o mundo que o cerca (pista, picadeiro ou campo) pela vista ampla, pelo olfato e pela audição.
Seu contato com o cavaleiro se limita a uma vista restrita (talvez monótona), sons discretos e sensações tácteis na boca e nos flancos.
Não podemos mudar a visão constante do cavalo sobre a nossa pessoa, já que estamos montados sobre ele, na mesma posição. Para que não "adormeça" ou se rebele por monotonia ou tentação provinda do meio exterior, só nos restam duas alternativas: uma é mudar a sensação do tato, modificando ajudas. Outra é atrai-lo para percepção da nossa pessoa, pela recompensa durante o trabalho.
No meu entender a fórmula seria: interromper o exercício a tempo, após algum tipo de acerto por parte do cavalo, recompensar e iniciar outro exercício que utilize ajudas diferentes de rédea e perna. Por este processo pode-se inclusive voltar ao exercício anterior, depois do novo.
Essa dinâmica mantém a "motivação" do cavalo no trabalho, de uma maneira geral. O ambiente em que o trabalho é realizado também altera a predisposição para a manutenção do estado de atenção (motivação), conforme seja em local fechado ou aberto, só ou na companhia de outros cavalos. Cabe ao cavaleiro ponderar essas coisas por ocasião do seu programa de trabalho.
Mesmo o cavalo disperso pode ter seu estado de "motivação" administrado por processo semelhante ao acima referido, devendo o cavaleiro tentar perceber a diferença entre os tipos de animais. O que se pode, na verdade, é administrar a motivação que o cavalo é capaz de oferecer, ao mesmo tempo em que se busca incutir que a ida para o local de trabalho é uma oportunidade de ser gratificado.
É difícil para um cavalo se agradar ante a eminência de ser levado ao trabalho diário, quando isso significa esforço, esforço, suor e mais esforço. A lembrança do local de conforto o atrairá constantemente e tão logo o possa, tentará retornar.
Os mais generosos terão maior capacidade de sublimação ante estas tentações; outros fraquejarão na rebeldia ou marasmo.
Outra maneira de "nos apoderarmos" da atenção do cavalo é pelo aparecimento de pequenas "surpresas" durante o trabalho. Surpresas estas que ele já conhece isoladamente.
No trabalho de cavaletes esse universo é amplo. No flexionamento idem, colocando nestas sessões pequenos saltos ao trote, que em nada vão atrapalhar os objetivos de flexionamento do dia e provocarão no cavalo um estado de alerta.
Se o cavalo não é de salto ou mesmo pertença a outro tipo de modalidade rural ou nativista, a recomendação continua válida: surpreender suavemente o cavalo sempre que puder, por meio dos estímulos inopinados que a modalidade permite.
A emoção provocada desperta, cria estímulo, permanece um tempo (mesmo depois de passada) e habitua o cavalo a manter um estado de alerta que é benéfico à motivação.
O momento ideal da recompensa, neste tipo de trabalho, é logo depois da "surpresa".
Um exemplo bem ameno de surpresa: cavalo trabalhando na volta, no círculo ou na serpentina, sob a ação de rédea direta (3* efeito de rédea). Inopinadamente a rédea é levada à "contrária à frente da cernelha” (4* efeito), obtendo-se dois passos laterais - não mais que três.
Depois se volta ao trabalho como estava. Repetindo esse pequeno pedido durante o trabalho em questão o cavalo passa a se preparar para não ser pego de inopinado; preparo este que se reflete sensivelmente na vivacidade com que passa a realizar o exercício inicial.
O cavalo tem uma programação, uma vocação para o estado de alerta, devido a sua posição de presa, quando na natureza.
No estado de"alerta"estão implícitos aprestamento, vivacidade e atenção. O cavalo trabalhando sob a égide deste triunvirato dá ao cavaleiro a impressão de estar "motivado".
O estímulo "surpresa” (melhor dizendo: súbita novidade conhecida - para que não se pense em assustar o cavalo) definitivamente é um mantenedor do estado que nos aparenta como sendo motivação.
Cabe, portanto ao cavaleiro, com qualquer tipo de cavalo, para o trabalho destinado a qualquer modalidade eqüestre, distribuir (no seu planejamento) prioridades diversas aos seguintes tópicos a serem utilizados:
a) que o local do trabalho venha a atrair o cavalo, por ser registrado como um local onde recebe coisas gostosas (de preferência o que não coma normalmente). Estas devem ser administradas apenas pelo cavaleiro montado, nos momentos que se mostrarem interessantes.
b) a sensação de tato propiciada ao cavalo pelo emprego das ajudas não pode permanecer muito tempo igual, sob pena do cavalo ir se abstraindo do cavaleiro em função de outras atrações exteriores.
c) despertar no cavalo, tão logo se mostre necessário ao longo do trabalho, o dispositivo de alerta, atávico da presa, por meio de estímulos inopinados que não lhe abalem o equilíbrio emocional.
No trabalho realizado no exterior, se bem que possa conter mais estímulos dispersantes, é o trabalho onde o cavalo mais se apresenta motivado, quando bem dosado, por que é intrínseca a natureza liberta do cavalo.
O trabalho no exterior, mesmo quando cronometrado por fases, deve contar com oportunidades concedidas ao cavalo de se apoderar também da vegetação como alimento.
O cavalo que teme saltar dentro d'água, deve encerrar o trabalho dentro d'água, sendo recompensado na água... e por aí vai.
Emoldurando isso tudo (agora sim) estarão as condições para o bom trabalho, as quais muitas vezes aparecem (no meu entender) equivocadamente como sendo capazes de propiciar motivação (alimentação, dosagem de esforço, saúde, etc).
São condições de bom trabalho. Não são motivações. Não o são porque o cavalo não tem motivação que não seja por estímulos imediatos, assim como as crianças.
Numa turma de adultos o professor pode tentar manter a motivação da turma, lembrando a eles como teria sido difícil chegarem até aquele ponto, bem como todo o sacrifício que seus familiares fazem para isso.
Pode também lhes lembrar dos futuros exames finais, bem como da importância da solidez dos conhecimentos como profissionais, num futuro.
Mas com crianças, não. Só se motivam, na aula, pelo imediato. Cavalos são assim também.
A motivação para o trabalho é procurada durante o próprio trabalho, se é que possa ser obtida.
Nada, nem antes nem depois, podem produzi-la a priori. Apenas a sensibilidade do cavaleiro é o critério para essa descoberta. E isso não depende da excelência como equitador, mas sim da quantidade de interação que já tenha feito com o mundo onde o pensamento do cavalo vive, bem como do seu poder de criação.
Cavalier

 

LEVANTANDO O VÉU

Indice

Cavalier

Dias existem nos quais acordo sem nenhuma vontade de montar a cavalo.
Parece que tudo é mais urgente e que melhor seria não ir e tratar de outra prioridade. Então começo a cumprir minha rotina do amanhecer muito lentamente, como a esperar para decidir se monto ou não monto neste dia.
Corto a cenoura sem muita convicção e vou pensando, totalmente indeciso, até o momento em que calço as botas, lentamente. A ver-me calçado nas botas então meu interior se revoluciona e passo da indecisão para a urgência. Quero estar logo a cavalo, como se fosse um menino que iria montar pelas primeiras vezes.
Não quero interpretações: quando se fala se começa a errar. A coisa é, simplesmente é. Já me acostumei com isso e nem quero saber o porquê.
Cumpro um programa por mim mesmo estabelecido, a fim de me gratificar com pequenos avanços diários, sobre um cavalo dócil, novo, que muito aprecio. Este, quando um pouco mais novo, ainda fazia algumas encartadas súbitas, tipo disparar dois galões à frente, ao galope, acompanhado de duas ou três garupadas. Nitidamente de boa índole, atribuo a esses corcovos não serem muito violentos o fato de nunca ter me derrubado. Essa fase passou. Hoje trabalha muito sério e é um cavalo muito fino.
Quando me chegou, dado como amansado, tinha pavor da mão.Tal fato não era devido a ter sido submetido a uma prévia iniciação de maneira errada. O pessoal, disso encarregado, trabalha bem. Mas o cavalo era fino demais para a sensibilidade normal deste competente pessoal. De uma fineza rara, a melhor mão de lá ainda era pesada para ele.
Quando me foi entregue, o responsável me veio com o seu histórico de potro, anotações, recomendações sobre o uso do bridão grosso, bridão de borracha, etc. Tão logo o montei e toquei na rédea percebi todo o quadro. Após uma volta ao passo no picadeiro, o cavalo me falou mais dele do que qualquer relatório do encarregado.
Cabeça em pé ...cabeça em pé.
Ali mesmo troquei o bridão pelo mais fino que tenho, de três pedaços( o qual nas mãos do cavaleiro mediano seria o mais violento ).
O encarregado não falou mais nada: embora não conseguisse antever o que se passaria com a utilização de um bridão(segundo seu entendimento) totalmente desrecomendado para o caso, compreendeu que o cavalo saíra da mão do iniciador e entrava na mão do ecuyer . Portanto haveriam algumas coisas muito estranhas mesmo e certas coisas que eram passariam a não ser, bem como o proibido seria oficializado ... e resignou-se.
Explico melhor o bridão grosso e o seu conceito - Por que o recomendam para o cavalo novo? Por que é tido como uma embocadura mais suave e na qual o cavalo deveria encontrar mais conforto e estímulo para encostar na mão ?
E porque nada disso, secularmente transmitido, é verdadeiro...
(a não ser muito relativamente)
Imagine que você tem uma barbearia, na qual trabalham alguns barbeiros com diferentes níveis de experiência. Imagine que nesta barbearia entram clientes com as mais variadas sensibilidades na pele e na espessura das barbas a serem feitas. Finalmente imagine que você não quer perder nenhum cliente.
Então você determina aos seus barbeiros (por saberem que eles não tem a mão tão firme como a sua ) : barbeador elétrico.
"Aqui só se usa barbeador elétrico. É a segurança do cliente e a garantia do seu retorno" e você supervisiona os empregados a barbearem a clientela.
Ocorre, entretanto que, já na hora de fechar a barbearia, estando apenas você presente, entra um cliente. Só resta você para barbeá-lo; você, mestre em barbearia - o navalha de ouro. Então você pega a navalha do jeito que aprendeu com os antigos e barbeia rápida, suave e magistralmente o cliente.
Diz ele: que barba suave, nem senti a navalha encostar na minha pele. E como está liso, sem nenhum corte...
Mas um funcionário retardatário que ainda trocava a roupa, assistiu a cena e julgou-a uma contradição com o ensinamento anteriormente ministrado...
Se ainda não fui entendido, procurarei ser mais explícito: a recomendação geral para uso do bridão grosso (como mais suave) não se referencia no bridão em si. Na verdade é para preservar o cavalo da mão do cavaleiro. Quando existe uma mão capaz de sentir, pelas rédeas, tudo aquilo que a boca do cavalo está fazendo o cérebro do animal experimentar, não há mais finalidade de bridão grosso nem para o potro mais novo. "'quanto mais de ferro na boca, menos de arte "
Os erros da mão e a natural insensibilidade daqueles que ainda puxam rédeas, provocariam catástrofes sob o uso de um bridão fino. Mas quando existe uma mão segurando as rédeas que sabe, por punho e sensação, reunir e alongar um cavalo...o uso do bridão grosso é apenas mais ferro desnecessário.
O cavalo novo debruça. O cavalo sem adestramento também. Não quer parar.Não sabe parar, então o cavaleiro puxa, saca, arranca. Então melhor que seja um bridão grosso que fará menos mal.
Portanto a secular recomendação do bridão grosso, perpassado por gerações, não está vinculada a uma mágica propriedade mecânica daquela embocadura.
O jovem instrutor, ufano do seu saber, explica aos demais as grandes vantagens do bridão grosso ...quando na verdade, para o cavalo que encontrou seu mestre, só haveriam desvantagens no uso de um bridão destes.
Mas que ninguém se arvore nesta tentativa sem plena certeza de estar habilitado. Para alguns será uma virtude inata. Para outros, o resultado de anos e anos de sela, sob uma postura monástica na busca da arte e dos seu mistérios.
Melhor deixar que se pense conforme tem sido pensado, penso eu agora, depois disso escrito. Não sei se fiz bem ou se fiz mal.
De qualquer forma, justiça será feita: aos pretensiosos que arvorarem-se a uma sensibilidade que não possuem, por falta de modéstia, o castigo virá a cavalo .Para aqueles que podiam e não sabiam que podiam, a luz terá chegado.
Mas voltemos ao caso do cavalo em questão...
Em três dias estava com o focinho no chão e até hoje nunca mais levantou a cabeça a não ser quando solicito. Depois vim trazendo, enrolando o carretel um pouco e desenrolando em seguida. Está com um pescoço lindo atualmente e trabalha em grande equilíbrio, relativamente ao tempo de trabalho que tem.
Não tem focinheira, gamarra, nada. Só uma faceira muito fina da cabeçada e o bridão na boca . Só não fechei o ramener porque não é hora, mas já tenho a certeza antecipada desta obtenção pelas prévias que fiz. É um cavalo certo para quem começa a envelhecer e tem muita coisa a ensinar a um cavalo que consinta em aprender com calma.
Quando estive em Desempenho escutei um instrutor transmitindo a um iniciante a mais bela figura de comparação, com respeito à sacralidade deste contato (com a boca do cavalo). Dizia ele qualquer coisa mais ou menos assim:" pegue as rédeas como se estivesse pegando um passarinho. Se as mãos estiverem muito frouxas, o passarinho vai fugir; se estiverem muito apertadas o passarinho vai morrer "... Foi o conceito inicial mais belo que já ouvi.
Afirmo que, mais tarde, pode ser possível abrir e fechar as asas do pássaro, esticar e encolher suas pernas e abrir e fechar seu bico sem que ele em nada seja constrangido nem queira fugir. Quando for possível fazer isso o cavaleiro irá entender o que aqui pretendi transmitir.
Para o cavalo, melhor do que o bridão fino, só mesmo sem nada na boca .
Humildade ao interpretar esta mensagem.
Cavalier

 

DAR TEMPO A QUEM PRECISA DE TEMPO

Indice

Aluisio Marins, MV.
“Algumas vezes, quando um cavalo termina um trabalho, mais quente e suado que normal, gosto de ficar com ele ajudando-o a compreender que tudo aquilo é só um assunto que vamos ter que conviver, e gosto de deixá-lo explorar um pouco isso.”
Tom Dorrance
A colocação acima foi feita por um dos grandes mestres do Horsemanship Tom Dorrance. Se pensarmos no que ele diz, devemos sempre dar um tempo para que os cavalos assimilem o que foi trabalhado ou solicitado. É comum passarmos do ponto em alguns aspectos como esforço, exigência, tempo de trabalho. O problema disso é quando passamos do ponto sem saber que passamos do ponto, e isto acontece muito em todos os lugares. As pessoas, profissionais ou não do cavalo, devem ter o discernimento e a consciência de que é preferível a qualidade do que a quantidade.
O que Tom Dorrance quer dizer em sua colocação, é que quando um cavalo termina mais cansado do que o normal, ou mais suado do que o normal, ele dá a chance do cavalo assimilar que aquilo é algo que de vez em quando poderá acontecer no trabalho do dia a dia. A grande diferença disso para o excesso de trabalho é o conhecimento. Quando se conhece sobre cavalos, se prima pela qualidade e não somente pela quantidade no treinamento. Casos como cavaleiros que ultrapassam o limite em treinamento de salto, de adestramento, de rédeas, de tambor ou balizas, devem ser analisados pela qualidade e não pela quantidade. A idéia do quanto mais, melhor, na mesma sessão, não é realmente a mais coerente. A idéia do quanto melhor, menos, ou seja, se seu cavalo acertou, fez o que foi solicitado, fez com clareza e pensando no que estava fazendo, sim, parece ser um indicativo de estarmos priorizando pela qualidade no trabalho.
Pense na qualidade e na quantidade de uma sessão de trabalho. Quando seu cavalo passar um pouco do normal de cansaço, dê um tempo para ele assimilar tudo aquilo da melhor forma possível. Dê tempo para ele respirar, pensar e entender o que lhe foi solicitado. Dê tempo para ele entender que na vida existem momentos de mais trabalho, menos trabalho, mais trabalho em curtos espaços de tempo, menos esforços em longos períodos, e assim a vida segue. O que vale nisso tudo é que ele entenda e assimile que com você a chance é sempre grande de tudo estar sempre bem. Obviamente que isto depende muitos mais de você do que dele...
Boa Semana!
Fonte: Universidade do Cavalo
http://www.universidadedocavalo.com.br

 

Conquistando um bom esbarro

Indice

Por: Jango Salgado

É fundamental que se tenha o mínimo de condições favoráveis, para que se consiga treinar um bom esbarro.

INDISCUTIVELMENTE, A marca registrada do cavalo de rédeas é o esbarro, manobra na qual vemos um animal em alta velocidade, entrando com seus posteriores embaixo do corpo, com a cabeça colocada, boca fechada e a frente solta para que se consiga um equilíbrio perfeito. Porém, o que muitos não sabem é que muito trabalho e dedicação foram necessários para se atingir o produto final desejado. Creio ser fundamental que se tenha o mínimo de condições favoráveis, para que se consiga treinar um bom esbarro.
O seguinte item, chamo de condição favorável:

PISTA:
Pelos meus anos de treinamento com cavalos de rédeas, acredito que a pista adequada é aquela que tem sua base nivelada e compactada, com uma camada solta de areia na superfície. Se possível, de um bom tamanho para que possamos ter espaço para trabalhar conforme a evolução do treinamento. A quantidade de areia na superfície vai depender do tipo de areia, se for uma areia pesada, a quantidade é menor, caso a areia seja mais leve, a quantidade é maior.

FERRAGEAMENTO:
Por se buscar o equilíbrio e o melhor balanceamento num cavalo atleta, é fundamental que este animal seja bem ferrado e caso necessite de algum ferrageamento especial, que isto seja feito. Precisamos avaliar se o cavalo entra com facilidade no chão, se está reto, se solta na frente etc.
Na verdade é importante que exista uma sintonia fina entre o ferrador e o treinador, para que juntos façam os ajustes necessários.

EQUIPAMENTOS:
Credito muita importância para os equipamentos, para que o meu animal trabalhe com confiança e conforto. Incluo nesta lista sela, embocaduras, protetores, mantas etc.

CONFORMAÇÃO:
A morfologia do cavalo pode facilitar a manobra, caso tenhamos um cavalo bem equilibrado e proporcional.

ATITUDE:
A atitude do animal em questão é muito importante, ou seja, quero sentir boa vontade e facilidade em receber os ensinamentos.
Acredito que todos os resultados são conseguidos através da confiança. Só teremos um cavalo esbarrando bem no galope lento, depois que já esbarrar bem no trote; só teremos um cavalo esbarrando bem no galope médio, depois que já esbarrar no galope lento; e assim sucessivamente.
Na minha opinião, treinar um cavalo é como construir uma casa, primeiro precisamos do alicerce, depois das paredes e finalmente do telhado.
O problema mais comum que vejo acontecer é exatamente quando as pessoas começam a casa pelo telhado. Por ansiedade de ver o cavalo pronto, competindo, muitas vezes as pessoas pulam etapas que vão fazer falta mais adiante. Quando esbarro um cavalo, quero que ele corra alinhado, ganhe velocidade gradativamente e não tenha receio em receber minha mão no momento da parada. Procuro ter intimidade com meus animais, em que exista respeito e não medo. Bom trabalho a todos!!!

    • Jango Salgado Assessoria e Cursos, vice-campeão Mundial de Rédeas -USA, 8 x Campeão Brasileiro de Rédeas.

     

     

Controle a nuca do seu cavalo

Indice

Quero ser capaz de checar a nuca a passo, trote, galope, durante um giro.
Quero ter intimidade na boca do meu animal

Por: Jango Salgado

A boca do cavalo é como um alarme de incêndio, se não temos motivo para acioná-lo, o melhor é não tocar.

QUANDO MONTAMOS, uma das coisas que seguramente precisamos é ter controle da nuca do cavalo. Através da nuca, conseguimos desenvolver uma boca mais leve, suave e responsável.
Muitas pessoas neste momento optam por artifícios e embocaduras mais severas para tentar obter o controle do animal. Creio ser de extrema importância o controle do que você faz desde o princípio da doma e treinamento.
Não vamos ter o controle da nuca logo que começamos a doma, mas aos poucos vamos apurando e refinando este item tão importante na equitação. No principio, meu objetivo é trabalhar a nuca em círculos a passo, para que depois eu possa cobrar a trote e após a galope.
Começo a trabalhar a nuca em círculos,  para que fique mais fácil manter o animal levemente arqueado, a fim de que sinta como se comporta cada lado do corpo e da boca do meu cavalo.
Quando verifico a nuca, procuro fazer contato na boca e com as pernas, impulsiono o animal para cima da embocadura, para que ele ceda a nuca e mantenha a velocidade e o andamento em que me encontro. Sempre que obtenho a resposta, solto as rédeas e alivio a pressão das pernas, dando ao cavalo uma recompensa por ter cedido a nuca.
Com a evolução do treinamento, vou ficando um pouco mais exigente quanto ao tempo em que cobro a nuca.
Na verdade, quero ser capaz de checar a nuca a passo, trote, galope, durante um giro. Quero ter intimidade na boca do meu animal.
OBSERVO QUE ALGUMAS pessoas ao checar a nuca ultrapassam o ponto ideal, fazendo o cavalo ficar atrás da embocadura, colando a boca no peito e indo para onde ele quiser.
A virtude esta no meio, cuidado para não se preocupar tanto em ter controle da nuca e passar do ponto ideal. Não quero que meus animais tenham medo, mas quero que eles respeitem não só minha mão, mas também a embocadura.
Procuro observar qual a posição natural de pescoço e cabeça do meu animal. Ao ter o controle da nuca, procuro deixá-lo a vontade.
A boca do cavalo é como um alarme de incêndio, se não temos motivo para acioná-lo, o melhor é não tocar. Através da nuca, nós vamos ter grande parte do controle de nossos animais, uma vez que nossas mãos estão ligadas às rédeas, que por sua vez estão ligadas à embocadura, a qual está ligada à boca do animal.
Cuidado para não colocar seu animal em movimento, manobra ou velocidade na qual você não tem controle. Procure sempre fazer sua cavalgada de modo seguro e prazeroso, tanto para você como para seu companheiro de viagem.
Compartilhar suas vontades e limites com seu animal é algo muito recompensador.
Bom trabalho!!!!!!!

•Jango Salgado - Assessoria e Cursos -
é vice- Campeão Mundial de Rédeas - USA;
8x Campeão Brasileiro de Rédeas.

 

DEZ CARACTERÍSTICAS QUE IDENTIFICAM UM BOM CENTRO EQÜESTRE

Indice

Por: Aluísio Marins

1. A aparência geral do local: identifica o cuidado com os detalhes por proprietários e funcionários. Não é o fator mais importante, mas é o primeiro que cai na vista, e mostra dedicação e organização.
2. Acesso e localização: para receber clientes e visitantes, um estabelecimento eqüestre deve estar em local de fácil acesso, com estradas em condições boas de rodagem, sinalização indicando o caminho